Sete da manhã. Felipe saía de casa,
de terno e gravata, com os cabelos devidamente penteados e carregando sua
pasta. Ia a pé para a empresa onde trabalhava. Chegou lá as sete e quinze
pontualmente.
- Bom dia, Senhor Felipe – dizia o
porteiro do prédio.
- Bom dia, Jorge – respondeu
desanimado.
Entrou no elevador e subiu até o
quarto andar. Antes de entrar, olhou para as portas de vidro e os dizeres
nelas: “Setor Financeiro”. Dirigiu-se então à sua mesa, ou melhor, seu
“cubículo”. No caminho, distribuía “bom dias” a torto e a direito. Sentou em
seu cubículo, ligou o computador, recostou-se na cadeira e suspirou. Hora de
trabalhar.
Dez da manhã. O telefone de Felipe
toca. É a namorada, Bruna. Ele hesita, mas finalmente atende.
- Alô?
- Oi, amor. Tudo bem?
- Sim, claro. Olha, eu estou no
trabalho agora, é urgente?
- Não, só queria saber se vamos sair
hoje?
- Acho que hoje não, amor. Estou com
um pouco de dor de cabeça.
O silêncio que se segue mostra a
decepção de Bruna. Ela finalmente responde:
- Ah, claro, tudo bem. Então tchau.
- Tchau.
Meio dia. Hora do almoço. Felipe se
levanta rapidamente e vai para o corredor, tentando evitar que alguém puxe
assunto com ele. Ao ver a fila no elevador, desce as escadas. Caminha por 10
minutos, acha um restaurante e come uma massa. Rápido, pois precisa estar de
volta em meia-hora. Nesse horário, Arthur já levantou e come um sanduíche em
sua cozinha. Sentado à mesa, olha para as ruas do centro, e sorri. Ia ser um
bom dia.
Meio dia e meio. Felipe já estava de
volta ao escritório, contando não só o dinheiro da empresa, mas também as horas
que faltavam para sair dali. Já Arthur ia trabalhar, em casa. Era o fundador,
editor, escritor e ilustrador de uma pequena revista independente. A edição
daquele mês estava quase pronta, faltava somente revisar os artigos e colocar
os desenhos digitalmente.
Três da tarde. Felipe ainda contava
as horas para sair. Só mais três. Arthur já terminara as revistas e começava a
imprimi-las. Olhou para a pilha de edições antigas. Sentia-se orgulhoso de sua
revista.
Seis da tarde. Felipe suspirou,
desligou o computador e arrumou suas coisas. Levantou-se e dirigiu-se à saída.
Descendo as escadas, pensava em como agora tinha possivelmente dois dias para
si mesmo. Arthur decidiu sair. Pegou seu livro preferido, “O Arquipélago”,
parte da trilogia “O Tempo E O Vento”, de Érico Veríssimo, e saiu. Foi até o
Parque da Redenção e sentou-se num banco.
Naquele momento, Felipe passava pelo
mesmo parque. Só pensava em voltar para casa, até que avistou Arthur.
Reconheceu-o dos tempos de colégio. Viu que estava lendo “O Arquipélago” e
sorriu ao lembrar que era o livro favorito dele desde a adolescência. Felipe
também era grande fã de “O Tempo E O Vento”, mas seu livro favorito era “O
Continente”. Discreto, sentou-se ao lado de Arthur e recitou o primeiro trecho
de “O Continente”, e o trecho final de “O Arquipélago”:
- “Era uma noite fria e de lua
cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e
deserta parecia um cemitério abandonado”.
Arthur olhou para cima, e,
reconhecendo Felipe, abriu um largo sorriso. Os dois se levantaram e
abraçaram-se.
- E aí, cara? Como tu anda? – disse
Arthur.
- Eu tô tri bem, num emprego bom,
namorando... E tu?
- Não podia estar melhor! Tenho uma
pequena revista independente que cresce a cada dia, um apartamento no centro de
Porto Alegre e acabo de reencontrar um grande amigo!
Felipe sorriu e baixou a cabeça, sem
saber o que dizer. Arthur sempre se expressara assim, de um jeito quase
romântico, mas Felipe era mais introvertido, e aquilo o deixava um pouco sem
jeito. Arthur, sem perceber, ou fingindo não perceber, disse:
- Vamos ter que sair para jantar
hoje!
- Ah, Arthur, eu não sei.
- Ora, vamos, te encontro na frente
do Píer 174 às 19h30min, certo?
Felipe não podia recusar o convite,
até porque estava com saudade de conversar com o amigo. Os dois se despediram e
foram para suas casas. Arthur saiu assoviando, pensando que o dia estava
realmente muito bom.
Seis e meia da tarde. Felipe chegou a
casa, tirou o paletó e a gravata e olhou o celular. Três chamadas perdidas de
Bruna. Olhou de novo e desligou-o. Bruna podia ficar uma noite sem notícias.
Tomou um banho e pensou em sua vida, em tudo que desejara um dia; em tudo o que
aconteceu. Saiu do banho, pôs uma roupa e sentou em seu sofá, desanimado. Já eram
19h15, e precisava andar logo se quisesse chegar a tempo.
Sete e meia da noite. Felipe chegou
pontualmente ao local de encontro, mas não viu Arthur em lugar nenhum. O amigo
chegou 15 minutos atrasado e Felipe pensou como deveria ter adivinhado,
pontualidade nunca fora o forte de Arthur. Os dois se abraçaram e começaram a
caminhar em direção ao restaurante, conversando sobre os tempos de colégio.
Chegaram ao bar e pediram duas caipirinhas.
Arthur percebeu como Felipe bebeu a
sua ansiosamente, como se quisesse se livrar logo de sua consciência. Olhou o
amigo, que observava o nada, com o olhar perdido. Felipe percebeu e logo
perguntou sobre a revista de Arthur, como, por que e quando começara.
Arthur deu um meio sorriso e pensou
antes de responder. Como, por que e quando havia começado mesmo? Não se
lembrava de uma data exata, só lembrava que fora no terceiro ano da faculdade
de Jornalismo. O motivo ele também não lembrava ao certo. Provavelmente ele só
sentira uma vontade repentina e incontrolável de mudar o mundo. E essa vontade
continuava, era ela que mantinha a revista. Toda vez que imprimia um novo
número, ou que via alguém lendo sua publicação na rua, sentia uma pontada de
orgulho que nunca ia embora por completo. Os olhos de Arthur brilhavam, e
Felipe sentia inveja da realização do amigo.
Continuaram conversando sobre coisas
banais, e foi somente depois de pagarem a conta e irem embora, que Arthur
perguntou:
- E tu, Felipe? Falando sério, como
andam as coisas?
- Falando sério? Sério mesmo? –
Felipe falava num tom irônico e meio arrastado. Arthur assentiu cauteloso. – As
coisas andam uma bela bosta! Fiz faculdade de Administração porque meu pai
queria, arranjei um emprego chato numa empresa qualquer e tenho uma namorada
que é um pé no saco! E pra completar eu nem tenho mais tempo de fazer o que eu
mais gostava, que era desenhar.
Arthur observou o amigo, que tinha
ido da ironia à frustação, passando pela raiva, em poucos segundos. Tentou
falar alguma coisa, mas as palavras não saíam. Ficaram em silêncio por um ou
dois minutos, cada um com seus pensamentos, até que Arthur falou, hesitante:
- Tu... Tu não desenha mais? Mas
desenhar era tua vida!
Felipe olhou para ele com desdém
antes de responder:
- É, era. Até o colégio acabar e
minhas vontades não importarem mais. Até meu pai destruir os meus sonhos,
dizendo que no mundo real só o dinheiro importa.
- Mas Felipe, isso ele sempre te
disse, e tu nunca o escutava! O que aconteceu?
- Não sei... Eu fui fraco e acabei
me deixando levar pelas declarações dele. A verdade é que eu sempre me importei
muito com o que ele dizia, mesmo sem demonstrar.
Felipe encarava o chão, um pouco
envergonhado, um pouco desolado.
- Felipe, isso não pode continuar!
Olha pra ti, cara! Só tu pode mudar isso!
Felipe deu um risinho antes de
responder:
- Ah, Arthur, como eu amo a tua
ingenuidade juvenil. Não é tão fácil assim, tu não vê? Agora eu já não tenho
mais 18 anos, não tenho mais idade ou disposição pra mudar o mundo!
- Essa é a maior bobagem que tu já
disse, e foram muitas... Nunca é tarde pra mudar a tua vida, ou o mundo, se
quer saber! Temos só 24 anos, Felipe, ainda é cedo.
- MAS NÃO É, ARTHUR, NÃO É! – Gritou
Felipe, olhando fundo nos olhos de Arthur.
As poucas pessoas que passavam pela
rua olharam para os dois, que se encaravam. Ainda se entendiam muito bem, mesmo
depois de tanto tempo. Arthur balançou a cabeça, olhou para o chão e disse, com
a voz suave:
- Mas é Felipe, e isso só depende de
ti! E se tu perdeu tua confiança no mundo, eu vou te ajudar a recuperá-la! Eu
juro que eu vou te ajudar a recuperar teu espírito juvenil dos nossos tempos de
escola.
- Contigo falando parece fácil...
- Vou te provar que é! E o primeiro
passo é tu te demitir desse teu emprego que parece que suga tua vida!
Felipe deu um meio sorriso e
balançou a cabeça, pensando que Arthur era mesmo um romântico incorrigível.
- Por favor, Felipe, deixa eu te
ajudar!
- Certo, certo, tudo bem! Vou me
demitir segunda... – Felipe não queria admitir, mas a verdade é que ele estava
muito feliz.
- Fora isso, acho que vou precisar
fazer um final de semana de intervenção. Tu não vê ninguém, não sai com ninguém,
não fala com ninguém, só comigo.
- Ora Arthur, acho que eu já sou bem
crescidinho.
- Pode até ser, mas olha aonde tu
chegou sozinho?
- Certo... – Felipe disse,
envergonhado.
- Ótimo. Vamos, meu apartamento é
por aqui.
Onze da noite. Os dois caminharam em
silêncio até o prédio de Arthur. Entraram, subiram a escada e entraram no
apartamento sem dizer uma palavra. Felipe sentou no sofá e olhou pela janela,
pensativo. Arthur pegou um lençol e um travesseiro e jogou para Felipe.
- Sinta-se em casa. Eu vou dormir.
Boa noite.
- Noite.
Arthur foi para o quarto. No outro
dia teria muito trabalho em reanimar Felipe e estava cansado. Deitou e logo
depois adormeceu. Diferente do amigo. Felipe ficou horas pensando na sua vida,
em como chegara àquele lugar. Não entendia como tinha deixado seu jeito
idealista para trás. Estava decepcionado consigo mesmo. Quando finalmente foi
dormir, já estava quase amanhecendo.
Dez da manhã. Sábado. Arthur acordou
e foi para a sala. Felipe não estava lá. Achou estranho e foi para a cozinha.
Também não estava lá. Seu apartamento era pequeno, não podia estar em nenhum
outro lugar. Tinha ido embora. Arthur suspirou, balançando a cabeça. Não ia
desistir tão fácil assim. Tomou um banho, fez um sanduíche e saiu, pronto para
procurar o amigo.
Onze da manhã. Tentara ligar para Felipe
várias vezes. Sempre na caixa postal. Estava ficando preocupado, não sabia de
nenhum lugar que ele poderia ter ido. Já havia caminhado por toda a Cidade
Baixa e não havia o encontrado. Não sabia por onde começar a procurar, a cidade
era muito grande. Sentou na calçada e pensou. Havia algum lugar que o amigo
gostava muito?
Foi quando percebeu. O Olímpico
Monumental. Felipe sempre gostara de ir lá, por mais estranho que pareça.
Arthur se levantou e começou a caminhar.
Onze e meia. Arthur entrou no
estádio e olhou em volta. Viu Felipe sentado nas arquibancadas, a vários metros
de distância. Andou em sua direção e falou:
- Cara, que ideia foi essa de sair
sem avisar?
- Eu precisava sair, estava
enlouquecendo.
- Foda-se! Eu tô tentando te ajudar,
mas tu também precisa me ajudar! Por que tu veio pra cá?
- Sei lá, sempre achei o Olímpico um
ótimo lugar pra se pensar. Ainda mais vazio. A imensidão dele contrastando com
o silêncio. Não sei, mexe comigo.
- Por que tu não atendeu o celular?
Felipe apontou para o chão. Arthur
olhou e viu o que costumava ser o celular do amigo. Agora era somente plástico
e vidro. Sentou ao seu lado. Os dois ficaram em silêncio, cada um com seus
pensamentos.
- Felipe, me explica direito como tu
chegou aqui.
- Como assim? Eu saí caminhando da
tua casa – respondeu, confuso.
- Não, idiota, como você veio parar
aqui na VIDA. Da última vez que te vi tu ia fazer vestibular pra Artes e tava
tri feliz. O que aconteceu?
Felipe suspirou antes de responder:
- Não, da última vez que tu me viu
eu ia fazer a prova específica pra Artes. Só que eu não passei. E meu pai
aproveitou isso pra me dizer que eu tinha que ouvir ele e largar meus desenhos.
E eu ouvi. Então quando passei no vestibular pra Administração eu me
matriculei. E fiz toda a faculdade. Arranjei um emprego bom, estável, tudo que
meu pai queria. Tudo que eu não queria.
- E a tua namorada?
- Conheci ela na faculdade. Mas não
é mais minha namorada.
- Quê? Como assim?
- Ela me ligou hoje e eu falei que
não podia ver ela esse final de semana e que ia me demitir segunda. Ela
terminou comigo. Não discuti. – Após alguns minutos de silêncio, ele retomou –
Mas e tu, Arthur, como tu veio parar aqui? Me explica como, e porque, nós
passamos tanto tempo sem nos ver.
- Felipe, tu sabe muito bem que
depois de acabar o colégio eu fui viajar. E talvez tenha sido por isso que a
gente não se falou mais. Não foi só contigo, foi com todo mundo da nossa turma.
Eu passei dois anos isolado desse mundo, rodando o meu próprio mundo. Visitei a
Europa, a África, a Ásia, a Oceania, fui a lugares que eu nem sequer pensava
que existiam, vi os lugares mais lindos mundo, e presenciei pessoas lutando
todos os dias para simplesmente sobreviver. Isso mexe com a cabeça de qualquer
um. Eu não conseguia, não podia e não queria manter contato com o mundo que eu
tinha deixado. Eu sabia que eu voltaria, mas, enquanto eu estava lá, eu tinha
que viver LÁ, entende? Depois que eu voltei, eu tinha mudado, e muito. Logo
comecei a trabalhar e a fazer faculdade, e eu não revi quase ninguém do
colégio, a não ser que eu esbarrasse em alguém...
- Tua viagem deve ter sido
sensacional.
- Foi mesmo. Me fez pensar muito
sobre muita coisa. Mas no momento eu tô preocupado CONTIGO. O que tu pretende
fazer?
Felipe suspirou antes de responder:
- Não sei. Eu realmente não quero
levar essa vida, mas eu não sei se tenho disposição pra mudar agora.
- Sério mesmo? É DISPOSIÇÃO o teu
problema? Isso é ridículo! Tô ficando cansado de discutir contigo. Tu vai se
ajudar ou não?
Felipe olhou para Arthur com um
olhar doído, agoniado.
- Vou, eu vou.
Arthur sorriu para o amigo e lhe
estendeu a mão.
- Fico feliz de ouvir isso. Vem,
vamos almoçar que eu fiquei a manhã inteira te procurando, babaca!
Os dois se abraçaram e Felipe
respondeu, meio envergonhado:
- É, desculpa por isso.
- Tudo bem, mas vamos logo, acho que
temos muito assunto pra pôr em dia.
Já passava de meio dia.