segunda-feira, 13 de outubro de 2014

burocracia.

          - Você já percebeu como a vida é burocracia?
          - Oi?
          - Nossa vida. Ela é... Ela é burocracia.
          - Burocrática?
       - Não, nossa vida é a mais pura definição de burocracia. Nós vamos passando por ela, preenchendo os formulários necessários pra seguir em frente. Independente do que queremos, os formulários são indispensáveis.
          - Do que raios você está falando? O que seriam esses formulários?
        - Tudo. Só estamos aqui conversando porque preenchemos nosso formulário do trabalho para ganhar um dia de folga. Só que para trabalhar precisamos preencher o formulário da faculdade, e antes o da escola, e para entrar na escola precisamos saber ler e falar, e... Tudo são formulários.
          - Mudos não aprendem a falar.
          - Então talvez eles sejam as pessoas mais livres do mundo. Menos um formulário pra eles.
          - Que seja.

          Ela revirou os olhos e acendeu mais um cigarro. O terceiro desde que chegara. Tragou devagar, segurou um pouco a fumaça e soltou-a lentamente pela boca. Olhou para ele, sentado ao seu lado, encarando o vazio, e quase conseguiu enxergar as engrenagens de seu cérebro trabalhando mais rápido do que o recomendado. Uma coisa a atormentava.

          - Mas... Se a nossa vida é toda baseada em formulários, então por que não podemos escolher quais preencher? Por que tenho que me contentar com esses formulários de merda que só me garantem a sobrevivência e a folga no final de semana?
          - A vida seria muito fácil se a escolha fosse nossa, não?
          - Bastante. E boa pra caralho também. E ainda provaria definitivamente o livre arbítrio.
          - Mas, querida, quem disse que o livre arbítrio existe? O livre arbítrio é uma mentira. Claro, podemos decidir algumas coisas como nosso almoço ou como passar nosso tempo livre. Às vezes podemos até nos dar ao luxo de decidir nosso emprego ou nosso companheiro. Mas ninguém escolher nascer ou morrer.
          - E os suicidas?
          - Suicidas estão fugindo de alguma coisa.
          - Mas escolhem morrer.
          - Tudo bem. Ninguém escolhe nascer. Ninguém. E você realmente acha que se não podemos definir quando vir ao mundo, vai fazer alguma diferença definir a hora de partir dele?
          - Dane-se. Vou embora não decidir nada sobre a minha vida.
          - Seja feliz.
          - Serei.

          Ela jogou o resto do cigarro no chão, colocou os óculos de sol e saiu andando, deixando-o sozinho naquele banco do parque.