- Você já percebeu como a vida é
burocracia?
- Oi?
- Nossa vida. Ela é... Ela é
burocracia.
- Burocrática?
- Não, nossa vida é a mais pura
definição de burocracia. Nós vamos passando por ela, preenchendo os formulários
necessários pra seguir em frente. Independente do que queremos, os formulários
são indispensáveis.
- Do que raios você está falando? O
que seriam esses formulários?
- Tudo. Só estamos aqui conversando
porque preenchemos nosso formulário do trabalho para ganhar um dia de folga. Só
que para trabalhar precisamos preencher o formulário da faculdade, e antes o da
escola, e para entrar na escola precisamos saber ler e falar, e... Tudo são
formulários.
- Mudos não aprendem a falar.
- Então talvez eles sejam as pessoas
mais livres do mundo. Menos um formulário pra eles.
- Que seja.
Ela revirou os olhos e acendeu mais um
cigarro. O terceiro desde que chegara. Tragou devagar, segurou um pouco a
fumaça e soltou-a lentamente pela boca. Olhou para ele, sentado ao seu lado,
encarando o vazio, e quase conseguiu enxergar as engrenagens de seu cérebro
trabalhando mais rápido do que o recomendado. Uma coisa a atormentava.
- Mas... Se a nossa vida é toda
baseada em formulários, então por
que não podemos escolher quais preencher? Por que tenho que me contentar com
esses formulários de merda que só me garantem a sobrevivência e a folga no
final de semana?
- A vida seria muito fácil se a
escolha fosse nossa, não?
- Bastante. E boa pra caralho também.
E ainda provaria definitivamente o livre arbítrio.
- Mas, querida, quem disse que o livre
arbítrio existe? O livre arbítrio é uma mentira. Claro, podemos decidir algumas
coisas como nosso almoço ou como passar nosso tempo livre. Às vezes podemos até
nos dar ao luxo de decidir nosso emprego ou nosso companheiro. Mas ninguém
escolher nascer ou morrer.
- E os suicidas?
- Suicidas estão fugindo de alguma
coisa.
- Mas escolhem morrer.
- Tudo bem. Ninguém escolhe nascer.
Ninguém. E você realmente acha que se não podemos definir quando vir ao mundo,
vai fazer alguma diferença definir a hora de partir dele?
- Dane-se. Vou embora não decidir nada
sobre a minha vida.
- Seja feliz.
- Serei.
Ela jogou o resto do cigarro no chão,
colocou os óculos de sol e saiu andando, deixando-o sozinho naquele banco do
parque.