Sabe quando somos crianças e nos perguntam o que queremos
ser quando crescer? É estranho, não? Como crianças podem ter tanta certeza.
Crianças sabem exatamente o que querem, e não ligam se aquilo é impossível, é o
que querem, é o que vai acontecer, e ponto.
Quem me dera ter a persistência e a ambição de uma
criança. Minto, quem me dera ter sua ingenuidade de que o mundo é simples e
justo. Quem me dera ter alguma certeza nessa vida. Quem me dera não ter
preocupações estúpidas. Quem me dera não ter preocupações. Isso tudo, na
verdade, não faz sentido pra mim. Como podem elas ter mais certeza do que são e
do que serão e eu, tantos anos mais velho, nenhuma? Não é justo.
Quando me faziam esses questionamentos na infância eu
sabia exatamente o que responder. Vou ser sozinho. Meus pais e os amigos riam
do estranho desejo do garotinho e passavam a algum outro tópico mais
interessante, política, economia ou qualquer outro desses assuntos de gente
grande. Eu ficava lá, num canto, como que escutando tudo, mas absorto nos meus
próprios pensamentos.
Isso era normal pra mim. Desde pequeno achava certas
atitudes cotidianas estranhas e preferia me afastar das pessoas a ter que aprender
a lidar com elas. Quando cheguei ao colégio, fiz como que um pacto silencioso
com meus colegas. Eles podiam ter suas maneiras clichês e entediantes longe de
mim e não precisavam ser simpáticos com o esquisitão. Pode parecer triste, mas,
honestamente, era um ótimo acordo, todos saíam felizes.
Minha mãe se preocupava com seu filho, sempre tão solitário.
Passei por inúmeros psicólogos que tentavam quebrar minha casca e me fazer
deixar a timidez de lado. Nenhum deles, nem o mais renomado doutor em
Psicologia, foi capaz de perceber que não era timidez coisa nenhuma. Nenhum
deles foi capaz de perceber que o que tinha à minha volta não era uma casca
natural, e sim um castelo cuidadosamente construído para não haver falhas. Para
que nenhuma brecha do estúpido mundo de fora fosse capaz de passar. Falhei.
Falhei miseravelmente nessa minha busca consciente pelo
isolamento. Falhei miseravelmente por motivos inconscientes que me fugiam do
controle. Falhei miseravelmente por causa da minha mente, que antes era
alimentada pela solidão, e passou a clamar por outras coisas. Falhei
miseravelmente por causa dos meus sentidos, que se tornaram escravos de visões,
cheiros, sons e toques. Falhei miseravelmente porque é esse o destino
inelutável do ser humano, que clama sempre por atenção, clama sempre por calor,
clama sempre por alguém.
Olhando em retrospecto, o pior pra mim foi a maneira como
falhei. Lenta e gradualmente. Tivesse eu falhado abruptamente, poderia
facilmente identificar o porquê da minha falha e até revertê-la. Da maneira
como foi, só percebi meus erros quando já era tarde demais para voltar atrás,
quando já estava demasiadamente envolvido com ela. Demasiadamente fascinado com
seus trejeitos e manias. Demasiadamente viciado em nós.
Foi assim, também, que ela conseguiu ser a única pessoa a
invadir meu castelo. Lenta e gradualmente. Começou com um rápido oi e o brilho
nos seus olhos castanho-escuros num lugar qualquer da faculdade. Foi adiante com uma conversa mais comprida
sobre qualquer coisa e sua voz meio rouca ao telefone. Dali para o cheiro do
seu hidratante de morango logo depois dela sair do banho. Para a sua mão
procurando a minha por baixo das cobertas. E, quando percebi, já estava
completamente dependente da maneira que ela me escutava e me entendia.
Completamente dependente dessa coisa de ter alguém.
É fato que eu poderia – até deveria – ter percebido que
algo estava errado. Pensando agora, ela me deu alguns sinais, mesmo que
inconscientemente. Ela deixou de me ligar só pra ouvir minha voz. Eu
ainda quero ouvir sua voz. Ela parou de usar o perfume que eu mais
gostava: aquela mistura única e perfeita de maçã verde com canela. Meu
coração ainda acelera quando me lembro de seu cheiro. Os bilhetes que ela me deixava foram
diminuindo até se resumirem a simples pedidos como fazer as compras no
supermercado. Eu ainda sinto saudade de encontrá-los nos mais inesperados lugares.
As noites passadas em minha casa já quase não existiam. Eu ainda penso nela quando a luz
se apaga.
Eu juro, tentei conversar com ela. Eu tentei nos salvar.
Tentei me salvar. Do vazio, do frio, da solidão. No início ela desviava das
perguntas, está tudo bem, é imaginação sua. Depois começou a apontar falhas em
mim. Eu as corrigi. Todas. Eu descobri, então, que de nada adiantaria. Ela já
não queria mais estar aqui comigo. Nada a faria mudar de ideia e eu fui deixado
com esse lugar sobrando ao meu lado. Ele
é dela. Eu sou dela.
Ela se foi, e nem deu tempo de eu me preparar. Foi com o
último de seus bilhetes que eu fiquei sabendo. Gostaria de dizer que era um
bilhetinho todo azul com seus garranchos dizendo que ela estava se mandando pra
Bahia, xuxu. Só que isso seria romântico demais, ele simplesmente dizia que ela
não estava mais feliz e ia se mudar. Achou melhor não nos vermos para evitar
uma despedida difícil. Achou melhor não dizer onde estaria, para que eu não
fosse vê-la. Nem sequer percebeu que aquele bilhete me dizia exatamente onde
ficaria para sempre: no meu passado.
Às vezes, queria uma explicação pra essa mudança. Às
vezes, só queria esquecer. Sei que é inútil, e que eu nunca saberei seus
motivos, e tampouco conseguirei esquecê-la completamente. Um pouco dela estará
sempre ao meu lado, como que me assombrando. Só que esse pouco dela não supre
toda a minha necessidade. E eu sou obrigado a viver assim – sozinho - agora, e
é essa minha sina. Acabou. Acabou.
Eu sou o que eu queria ser quando crescer.
Conto vagamente baseado na música "Quando Crescer", da Fresno.