segunda-feira, 13 de outubro de 2014

burocracia.

          - Você já percebeu como a vida é burocracia?
          - Oi?
          - Nossa vida. Ela é... Ela é burocracia.
          - Burocrática?
       - Não, nossa vida é a mais pura definição de burocracia. Nós vamos passando por ela, preenchendo os formulários necessários pra seguir em frente. Independente do que queremos, os formulários são indispensáveis.
          - Do que raios você está falando? O que seriam esses formulários?
        - Tudo. Só estamos aqui conversando porque preenchemos nosso formulário do trabalho para ganhar um dia de folga. Só que para trabalhar precisamos preencher o formulário da faculdade, e antes o da escola, e para entrar na escola precisamos saber ler e falar, e... Tudo são formulários.
          - Mudos não aprendem a falar.
          - Então talvez eles sejam as pessoas mais livres do mundo. Menos um formulário pra eles.
          - Que seja.

          Ela revirou os olhos e acendeu mais um cigarro. O terceiro desde que chegara. Tragou devagar, segurou um pouco a fumaça e soltou-a lentamente pela boca. Olhou para ele, sentado ao seu lado, encarando o vazio, e quase conseguiu enxergar as engrenagens de seu cérebro trabalhando mais rápido do que o recomendado. Uma coisa a atormentava.

          - Mas... Se a nossa vida é toda baseada em formulários, então por que não podemos escolher quais preencher? Por que tenho que me contentar com esses formulários de merda que só me garantem a sobrevivência e a folga no final de semana?
          - A vida seria muito fácil se a escolha fosse nossa, não?
          - Bastante. E boa pra caralho também. E ainda provaria definitivamente o livre arbítrio.
          - Mas, querida, quem disse que o livre arbítrio existe? O livre arbítrio é uma mentira. Claro, podemos decidir algumas coisas como nosso almoço ou como passar nosso tempo livre. Às vezes podemos até nos dar ao luxo de decidir nosso emprego ou nosso companheiro. Mas ninguém escolher nascer ou morrer.
          - E os suicidas?
          - Suicidas estão fugindo de alguma coisa.
          - Mas escolhem morrer.
          - Tudo bem. Ninguém escolhe nascer. Ninguém. E você realmente acha que se não podemos definir quando vir ao mundo, vai fazer alguma diferença definir a hora de partir dele?
          - Dane-se. Vou embora não decidir nada sobre a minha vida.
          - Seja feliz.
          - Serei.

          Ela jogou o resto do cigarro no chão, colocou os óculos de sol e saiu andando, deixando-o sozinho naquele banco do parque.

domingo, 22 de junho de 2014

quando crescer.

            Sabe quando somos crianças e nos perguntam o que queremos ser quando crescer? É estranho, não? Como crianças podem ter tanta certeza. Crianças sabem exatamente o que querem, e não ligam se aquilo é impossível, é o que querem, é o que vai acontecer, e ponto.
            Quem me dera ter a persistência e a ambição de uma criança. Minto, quem me dera ter sua ingenuidade de que o mundo é simples e justo. Quem me dera ter alguma certeza nessa vida. Quem me dera não ter preocupações estúpidas. Quem me dera não ter preocupações. Isso tudo, na verdade, não faz sentido pra mim. Como podem elas ter mais certeza do que são e do que serão e eu, tantos anos mais velho, nenhuma? Não é justo.
            Quando me faziam esses questionamentos na infância eu sabia exatamente o que responder. Vou ser sozinho. Meus pais e os amigos riam do estranho desejo do garotinho e passavam a algum outro tópico mais interessante, política, economia ou qualquer outro desses assuntos de gente grande. Eu ficava lá, num canto, como que escutando tudo, mas absorto nos meus próprios pensamentos.
            Isso era normal pra mim. Desde pequeno achava certas atitudes cotidianas estranhas e preferia me afastar das pessoas a ter que aprender a lidar com elas. Quando cheguei ao colégio, fiz como que um pacto silencioso com meus colegas. Eles podiam ter suas maneiras clichês e entediantes longe de mim e não precisavam ser simpáticos com o esquisitão. Pode parecer triste, mas, honestamente, era um ótimo acordo, todos saíam felizes.
            Minha mãe se preocupava com seu filho, sempre tão solitário. Passei por inúmeros psicólogos que tentavam quebrar minha casca e me fazer deixar a timidez de lado. Nenhum deles, nem o mais renomado doutor em Psicologia, foi capaz de perceber que não era timidez coisa nenhuma. Nenhum deles foi capaz de perceber que o que tinha à minha volta não era uma casca natural, e sim um castelo cuidadosamente construído para não haver falhas. Para que nenhuma brecha do estúpido mundo de fora fosse capaz de passar. Falhei.
            Falhei miseravelmente nessa minha busca consciente pelo isolamento. Falhei miseravelmente por motivos inconscientes que me fugiam do controle. Falhei miseravelmente por causa da minha mente, que antes era alimentada pela solidão, e passou a clamar por outras coisas. Falhei miseravelmente por causa dos meus sentidos, que se tornaram escravos de visões, cheiros, sons e toques. Falhei miseravelmente porque é esse o destino inelutável do ser humano, que clama sempre por atenção, clama sempre por calor, clama sempre por alguém.
            Olhando em retrospecto, o pior pra mim foi a maneira como falhei. Lenta e gradualmente. Tivesse eu falhado abruptamente, poderia facilmente identificar o porquê da minha falha e até revertê-la. Da maneira como foi, só percebi meus erros quando já era tarde demais para voltar atrás, quando já estava demasiadamente envolvido com ela. Demasiadamente fascinado com seus trejeitos e manias. Demasiadamente viciado em nós.
            Foi assim, também, que ela conseguiu ser a única pessoa a invadir meu castelo. Lenta e gradualmente. Começou com um rápido oi e o brilho nos seus olhos castanho-escuros num lugar qualquer da faculdade.  Foi adiante com uma conversa mais comprida sobre qualquer coisa e sua voz meio rouca ao telefone. Dali para o cheiro do seu hidratante de morango logo depois dela sair do banho. Para a sua mão procurando a minha por baixo das cobertas. E, quando percebi, já estava completamente dependente da maneira que ela me escutava e me entendia. Completamente dependente dessa coisa de ter alguém.
            É fato que eu poderia – até deveria – ter percebido que algo estava errado. Pensando agora, ela me deu alguns sinais, mesmo que inconscientemente. Ela deixou de me ligar só pra ouvir minha voz. Eu ainda quero ouvir sua voz. Ela parou de usar o perfume que eu mais gostava: aquela mistura única e perfeita de maçã verde com canela. Meu coração ainda acelera quando me lembro de seu cheiro. Os bilhetes que ela me deixava foram diminuindo até se resumirem a simples pedidos como fazer as compras no supermercado. Eu ainda sinto saudade de encontrá-los nos mais inesperados lugares. As noites passadas em minha casa já quase não existiam. Eu ainda penso nela quando a luz se apaga.
            Eu juro, tentei conversar com ela. Eu tentei nos salvar. Tentei me salvar. Do vazio, do frio, da solidão. No início ela desviava das perguntas, está tudo bem, é imaginação sua. Depois começou a apontar falhas em mim. Eu as corrigi. Todas. Eu descobri, então, que de nada adiantaria. Ela já não queria mais estar aqui comigo. Nada a faria mudar de ideia e eu fui deixado com esse lugar sobrando ao meu lado. Ele é dela. Eu sou dela.
            Ela se foi, e nem deu tempo de eu me preparar. Foi com o último de seus bilhetes que eu fiquei sabendo. Gostaria de dizer que era um bilhetinho todo azul com seus garranchos dizendo que ela estava se mandando pra Bahia, xuxu. Só que isso seria romântico demais, ele simplesmente dizia que ela não estava mais feliz e ia se mudar. Achou melhor não nos vermos para evitar uma despedida difícil. Achou melhor não dizer onde estaria, para que eu não fosse vê-la. Nem sequer percebeu que aquele bilhete me dizia exatamente onde ficaria para sempre: no meu passado.
            Às vezes, queria uma explicação pra essa mudança. Às vezes, só queria esquecer. Sei que é inútil, e que eu nunca saberei seus motivos, e tampouco conseguirei esquecê-la completamente. Um pouco dela estará sempre ao meu lado, como que me assombrando. Só que esse pouco dela não supre toda a minha necessidade. E eu sou obrigado a viver assim – sozinho - agora, e é essa minha sina. Acabou. Acabou.

            Eu sou o que eu queria ser quando crescer.

Conto vagamente baseado na música "Quando Crescer", da Fresno.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

dos invernos que passamos juntos.

Ei, lembra do dia em que nos conhecemos? Não, não. Não o dia que nos apresentaram. Nesse dia aprendi apenas o teu nome. Quero dizer o dia que a gente REALMENTE se conheceu. O dia que nós conversamos. Lembra? Eu lembro. Era 1983? Sempre me esqueço do dia. Mas sei que era julho. Pô, o Grêmio ganhou a Libertadores naquele mês! Dois grandes acontecimentos pra mim em apenas 30 dias! Tô brincando. Mas é um baita tempo, não? Muitos invernos passados juntos. Às vezes parece que foi ontem. Me lembro como se fosse. É engraçado como a nossa memória é meio seletiva. Eu acho, pelo menos.
            Não sei se já te contei, mas eu me sentia meio intimidado sobre ti. Como, por quê? Tu era A guria. Mais velha. Descolada. Bá, taí uma palavra que eu não devia usar mais. Não sei explicar. Tu era legal, só isso. Legal demais. Como eu sabia, sem falar contigo? Sei lá. Eu sentia. Eu sempre senti uma aura diferente vinda de ti. Vai em frente, pode rir, mas é verdade. Mesmo sem falar contigo, eu sabia que tu era demais. Demais pra mim. Muita areia pro meu caminhãozinho, entende?
            Certo, certo, eu concordo. Tu ainda é areia demais pro meu caminhãozinho. Muito engraçada! Mas ainda é mais velha também, e agora isso não é tão bom quanto antes, né? RÁ! Não, não precisa ficar braba! Vamos voltar pras memórias...
            Aquela festa foi boa, estranha e engraçada. Tenho a impressão de essas três coisas andarem sempre de mãos dadas. Tanta gente de núcleos diferentes no mesmo lugar. Aleatório. Sabe, me lembro muito bem de tudo sobre nós daquela noite, mas o resto dela é basicamente um borrão. Olha aí a memória seletiva de novo. Muito estranho. Talvez aquela vodka de garrafa de plástico fosse meio forte pra um guri como eu. Pensando agora é até engraçado. Aquela festa foi boa.
            É claro que eu sei que a vodka nem era forte! Ei, eu não sou fraco! Eu não tinha nem dezesseis anos! Era a primeira vez que eu bebia, poxa! Ok, deu de falar sobre minhas dificuldades com álcool, né? Obrigado.
            Eu estava sentando, sozinho, tentando evitar o mundo de girar ao meu redor. Tu dançando, como sempre. Não me olhe assim, isso não é ruim, é um fato! Dançava, aliás, com aquelas roupas estilo new wave, lembra? O passado condena, hein? Claro que eu também usava, e com muito orgulho das minhas calças coloridas. Era moda, né. Ainda bem que tudo passa nessa vida.
            Mas lá estava eu, sentado, sozinho, sem amigos e passando mal. Tudo que passava pela minha mente era que eu não deveria ter ido. E eu nem podia ir pra casa, imagina chegar naquele estado? Acho que matava minha mãe de desgosto. Já bastava meu pai assim lá em casa. Meus olhos passeavam pela festa, mas, de um jeito ou de outro, sempre voltavam pra ti. Eu juro que queria levantar pra conversar contigo, mas parecia que uma força muito maior me deixava preso naquela cadeira.
            Por sorte, ou destino, tu percebeu. Nossos olhares se cruzaram uma vez e eu desviei. Se cruzaram mais duas, três, quatro vezes. Na quinta, tu sorriu e caminhou em minha direção. Eu gelei. Eu devia estar completamente pálido, porque a primeira coisa que tu me perguntou foi se eu estava me sentindo bem. Que vergonha. Sim, sim, tu me levou um copo d’água. Muito obrigado, viu? E aí a gente conversou, lembra? Por muito tempo. Até que eu tive que ir embora. Antes de eu ir, tu me disse que tinha adorado me conhecer e que a gente se falava no colégio. Ainda me deu um beijo na bochecha. Saí de lá flutuando.
            Achei que dali em diante seria estranho quando nos cruzássemos no colégio. Não foi, graças a ti. Tu sempre fez questão de não deixar isso acontecer, e por isso sou eternamente grato. Tu vinha falar comigo no recreio e cada vez mais eu ficava encantado contigo. E eu decidi que não podia deixar só tu tomar a iniciativa. Ora, como por que não? Eu não queria parecer desinteressado... Ué, deu certo não deu? Tu também caiu nos meus encantos...
            Lembra? Teve um dia que te chamei pra sair depois da aula. Passear um pouco, despretensiosamente. Fomos no parque, comemos churros. Eram bons mesmo aqueles churros. Nesse passeio eu percebi definitivamente que não havia possibilidade de continuar minha vida sem ti. Decidi que tu ia ser minha, e eu teu, custe o que custasse. É, foi logo depois do nosso primeiro beijo.
            E depois daquele vieram vários, né? Eram bons, como se a gente fosse um só naquele momento, mas nunca foram o mais importante pra mim. Pra mim sempre foi a nossa troca espiritual. Era o fato de que não existiam, e não existem, segredos entre nós. Bastava uma troca de olhar para que um soubesse exatamente os pensamentos do outro.
            Acho que tu nem tem ideia do quanto isso foi importante pra mim. Era uma fase difícil, aquela. Sim, eu sei, a adolescência é difícil, mas aquele ano em especial, pra mim, foi pesado. Meu pai, mergulhado no alcoolismo, era só uma sombra do que ele tinha sido. Minha mãe, desesperada, sem saber como criar três filhos. Eu no meio daquilo tudo, tentando ajudar, cuidando dos meus irmãos, mas sem compreender por que a vida nos pregava essa peça. Sofria calado, achando que se eu falasse ia apenas piorar a situação. A sensação de vazio era constante. Até tu chegar. Afinal, tu me completava. Não, me desculpe, tu me completa até hoje.
            Piegas, eu sei, mas real. Depois nós acontecemos rápido, não? Quando percebi já admitíamos pros amigos que estávamos juntos, logo já te pedia em namoro e mais rápido ainda te levava pra casa pra conhecer minha mãe. Não sei se já te contei, mas logo de cara ela implicou contigo. Acho que ela tinha medo que eu parasse de ajudar. Eu entendo. Mas logo que ela viu quão feliz eu fiquei ela mudou de ideia.
            Quando tu entrou na faculdade e eu ainda estava no colégio confesso que tive medo. Em que mundo uma mulher de faculdade ia querer ficar com um guri de colégio? Descobri que no nosso. E logo mais eu estava também na faculdade pra te acompanhar nas empreitadas políticas, nos almoços no restaurante universitário e, principalmente, nas festas. Às vezes me pergunto como a gente aguentou anos daquela vida...
            Ah, e como esquecer das nossas viagens depois da minha formatura? Deliciosas viagens. É verdade, ninguém queria que a gente fosse! “Vocês acabaram de se formar, vão trabalhar! Ganhar um dinheiro e estabilidade! Depois há tempo para viagens!”. E nós, pra variar, não demos ouvidos. Ainda bem. Senão com certeza não teríamos conhecido tanto da Europa, Ásia, África e tantos outros cantos do mundo. Certo, nos metemos em várias indiadas, mas isso faz parte! São delas que nos lembramos hoje.
            E quando a gente voltou, alguns anos depois, quanta diferença, não? Parecia tudo tão igual, mas ao mesmo tempo tão diferente. A rotina dos nossos amigos e família era a mesma de quando havíamos ido embora, mas às vezes parecia que nós não pertencíamos mais a esse mundo. Porto Alegre continuava a mesma. Nós é que tínhamos mudado. Pra muito, muito melhor. É, foi muito difícil se readaptar mesmo... Quantas vezes brigamos com pessoas queridas por motivos que na época pareciam tão grandes e hoje não são nada?
            Se me arrependo? Nem um pouco. De que me arrependeria? De ter voltado pra cá? Verdade, poderíamos ter ficado em algum outro canto do mundo... Mas quem garante que teria sido tão bom quanto aqui? Eu não seria capaz de arriscar. E se nossa família tivesse saído diferente em algum outro lugar do mundo? Como seriam nossos filhos se não tivessem crescido correndo e caindo na Redenção, hein?
            Sabe, eu nunca menti pra ti, não é agora que vou fazê-lo. Foi difícil quando tu te foi. Muito, muito difícil. Sabe aquela sensação estranha de vazio que eu tanto sentia na adolescência? É, ela voltou. Ainda mais forte. Eu me sentia como num inverno eterno, sempre com frio, sem vontade de sair de casa, sem ninguém para me aquecer. Todos ficaram muito preocupados comigo. Mas tenho certeza de que tu sabe disso. Não, não precisa se preocupar mais, agora estou bem. Ou o mais perto disso possível. Se quer saber, ainda é difícil, mas as lembranças de nossos momentos me ajudam a continuar.
            Ah, mas não se engane, meu amor. A nossa história não acabou. Tampouco acaba aqui. Longe disso. Histórias desse tipo não acabam. Nunca. Então, por favor, não se esqueça jamais: nós dois somos eternos.


Conto baseado na música "Julho de 83", do Nenhum de Nós.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

veja bem, meu bem.

            Meu bem, não é que acabou mesmo? Você que sempre ameaçou o nosso fim, e eu que botei um ponto final em nós. Veja bem, não era minha intenção, mas que opção eu tinha?
            Meu bem, chegamos a um ponto em que você simplesmente não estava aqui. Nunca. Eu vivia só, e a vida sozinha é sem graça. Vivia uma semivida com você longe. Veja bem, eu sei que é estúpido depender tanto assim de alguém, mas o que fazer? E para piorar a minha situação, eu não só dependia de você como acreditava piamente que o sentimento era recíproco. Que tolo, não?
            Meu bem, logo percebi que precisava de alguém. Alguém que não você. Alguém que não me deixasse só nos dias ruins. Nem nos bons, na verdade. Alguém que me ouvisse. Que me abraçasse. Me beijasse. Veja bem, alguém que me amasse.
            Meu bem, e não é que realmente arranjei alguém pra me confortar? Logo eu, o eterno romântico que não desapega. Veja bem, não pense mal de mim, não era o que eu pretendia. Fui obrigado por você. Pela vida, talvez. Sei lá. De novo, não entenda mal, não foi e não é uma traição. Não sou capaz de sutilezas tamanhas, e, portanto, deixo essas para você.
            Meu bem, por favor, entenda. Não é nada disso que me fará esquecer de nós. De você, muito menos. Da desilusão? Ah, não. Desses fatos vis não esquecemos jamais. Não se preocupe, as coisas boas também não serão apagadas. Veja bem, me lembrarei de tudo, e confesso que às vezes gostaria de selecionar as memórias. Ah, desculpe pelo vai e vem, é a solidão que deixa o coração nesse leva e traz. Não tema, porém, porque daqui em diante estarei bem acompanhado.

Amor, veja bem, arranjei alguém chamado Saudade. 

Conto baseado na música "Veja Bem, Meu Bem", da banda Los Hermanos. (:

domingo, 17 de março de 2013

milonga.

             A rádio tocava uma boa e velha milonga uruguaia.
            - Não consigo mais, preciso ir embora.
            Ela levantou-se em um pulo e foi em direção ao quarto, enquanto ele ficou sentado no sofá, com seu caderninho em mãos, sem saber o que acontecia. Levantou-se logo depois, um pouco atordoado, e, pisando nos milhares de papéis pelo chão, seguiu-a.
            - Como assim, “não consigo mais”?
            - Não dá mais pra ficar aqui, preciso ir embora!
            Ficou observando-a, sem saber ao certo o que dizer para fazê-la mudar de ideia.
            - Mas e todos os nossos momentos? E toda a nossa vida?
            - Por que não escreve sobre eles, já que é só o que faz da vida? – Sua voz soou amarga.
            - Já cansei de escrever o que eu preciso te dizer. Você que nunca lê.
            - A culpa não é minha se você é homem feito e não consegue falar o que sente.
            - Minhas palavras são tudo que eu posso oferecer.
            - Resposta errada.
            E, com isso, adentrou no banheiro e começou a recolher suas quinquilharias. Ele, ainda um pouco perplexo, tentava compreender o que aquilo significava: o fim.
            O fim das noites em claro observando ela, rabiscando palavras sem sentido. Dos versos jogados pelo chão, pisoteados por sentimentos que nenhum dos dois compreendia. Daquele mar de lençóis que é sua cama, das histórias que cada uma de suas dobras conta. Daquele amor embriagante que nunca antes experimentara. Da felicidade. Dos dois. O fim?
            Ela entrou novamente no quarto, como um furacão, sem respeitar o que tinha a sua frente. Mas, também, não entrara em sua vida assim? Não fora isso que o impressionara? Mexia em suas roupas e as enfiava na bolsa, desordenada. Ele podia ver sua tristeza, e a sentia também, mas não sabia resolvê-la. Aproximou-se, o coração acelerado e a respiração ofegante. Seu desejo era tocar-lhe a alma, mas teve de contentar-se com o braço.
            - Mas diz por que chegou a hora? Mas diz por que tens tanto medo?
            - Não tenho medo, só... Chegou a hora de ir, é só isso.
            - Mas diz por que chegou a hora? Agora que eu venci meu medo...
           Sem responder, ela se virou e tentou chegar ao outro lado do quarto, tentando esconder o rosto. Ao passar do lado dele, sentiu suas mãos se entrelaçarem. Puxou-a num abraço que logo se transformou numa dança. Seus corpos estavam mais próximos do que nunca, e eles podiam sentir o coração do outro bater. Corações esses que corriam, desesperados, sem entender o que sentiam. Ela fechou os olhos e respirou fundo, sentindo o cheiro de menta que ele exalava sempre. Seus lábios tocaram a testa dela, num beijo singelo. As lágrimas já escorriam pelos rostos, e seus corpos formavam um só, mas as almas já não estavam em sintonia como antes.
            - Não posso viver sem você.
            - Pode sim, viveu 25 anos.
            - 25 tristes e solitários anos.
         - Dramático como sempre. – ela falou, balançando a cabeça - Vamos seguir nossas vidas, vais ver, e seremos apenas lembranças distantes um dia. Você sempre poderá lembrar.
            - Por que você insiste em dizer que ainda existirá vida sem você?
           Ele ficava nervoso. Via o seu mundo escapar pelas mãos, e não podia fazer nada a não ser se desesperar. Seus esforços de mudar o pensamento dela eram em vão, e sabia que assim continuariam; ela nunca mudava de ideia. Ela se desvencilhou de seus braços, e ele suava frio. Não conseguia aceitar o triste destino dos dois. Era assim que acabava, então? Depois dos três anos mais intensos de sua vida, era obrigado a ver tudo ir embora. A dizer adeus. E não tinha opção, não tinha escolha. Observou ela terminar de enfiar suas coisas na bolsa. Trocaram um olhar longo e significativo. Um olhar de adeus. Ela passou por ele, que tentou puxá-la, sem sucesso. Ela dirigia-se à sala, para juntar mais objetos espalhados pelo pequeno apartamento. Ele, que agora só sentia dor, seguiu-a, murmurando apenas alto o suficiente para que ela escutasse:
            - Quando você não esperar vai doer, e eu sei como vai doer.
            Ela olhou para ele, assustada. O modo que ele pronunciava cada sílaba fazia aquelas frases parecerem uma maldição.
            - E vai passar, como passou por mim, e fazer com que se sinta assim, como eu sinto, como eu vejo, como eu vivo, como eu não canso de cantar.
            Ela passou ao seu lado mais uma vez, e ele sentiu-lhe o perfume. Aquele perfume doce, misturado ao cheiro áspero de sua pele e do suor causado mais pelas emoções do que pelo dia quente. Abriu a porta.
            - Eu sei que vai ouvir, eu sei que vai lembrar. E vai rezar pra esquecer, vai pedir pra esquecer. Mas eu não vou deixar.
            Trocaram um último olhar. Doído como suas vidas. Os corações batiam acelerados, e não se ouvia nada naquele momento. Seu último momento. Palavras voavam por suas mentes, mas nenhuma chegou a suas bocas.  A porta começou a se fechar, ele abaixou a cabeça e cerrou os punhos. No momento em que a porta bateu, ouviu-se apenas um murmúrio:
            - Eu não vou deixar.
            Falando isso, desabou. Escorregou até o chão, as lágrimas correndo soltas pelo rosto, protegido pelas mãos. Sua cabeça era um turbilhão de emoções, e ele não era capaz de nenhum raciocínio naquele momento. Passou horas encarando o vazio pensando nela.
Logo percebeu que não tinha volta. Ela fora embora pra sempre, levando com ela seu coração, mas não seu orgulho. Seu mundo acabara, mas iria reconstruí-lo. Custe o que custasse.
            - Vou te esquecer.
            Levantou-se, e começou a recolher tudo que lembrava ela. Logo percebeu que tudo remetia a ela, teria que livrar-se do apartamento. Todos os travesseiros com seu cheiro, as cartas com sua caligrafia, os vídeos com sua imagem e, pior, sua voz. Toda uma vida, jogada fora. Separou todas as fotos dos dois, e rasgou-as ao meio. Pegou um pote de vidro e um isqueiro. Segurou a primeira metade próxima ao rosto e acendeu o isqueiro. Tocou a chama no canto da foto, e observou o fogo consumir lentamente o rosto sorridente. Uma memória destruída. Apenas a primeira de muitas.
            - Vou te esquecer. 

- Alô?
- Oi... Como vão as coisas?
- Vão indo. Com você?
- Não exatamente. Preciso de você. Muito.
- Que engraçado, você que foi embora.
Silêncio.
- Veja bem, como você mesma disse, agora somos apenas lembranças distantes. Você sempre poderá lembrar.
- Eu não quero lembrar que chegamos ao nosso fim. Eu não quero lembrar que eu vou acordar sabendo que meus olhos não vão te encontrar. Eu não quero lembrar que tudo acabou pra mim.
- Já te esqueci.
Dos dois. O fim.


Conto baseado na música "Milonga", da banda Fresno. Recomendo escutá-la. (:

domingo, 28 de outubro de 2012

meio dia.

             Seis da manhã. Sexta-feira. O começo de mais um dia de trabalho para Felipe. Mais um dia igual aos outros. Naquele momento, em uma rua do centro da cidade, Arthur ia finalmente dormir. Dormir após terminar mais uma reportagem. Olhou pela janela, pensando em como Porto Alegre ficava bonita com a luz do nascer do sol, desligou a luz e dormiu.
            Sete da manhã. Felipe saía de casa, de terno e gravata, com os cabelos devidamente penteados e carregando sua pasta. Ia a pé para a empresa onde trabalhava. Chegou lá as sete e quinze pontualmente.
            - Bom dia, Senhor Felipe – dizia o porteiro do prédio.
            - Bom dia, Jorge – respondeu desanimado.
            Entrou no elevador e subiu até o quarto andar. Antes de entrar, olhou para as portas de vidro e os dizeres nelas: “Setor Financeiro”. Dirigiu-se então à sua mesa, ou melhor, seu “cubículo”. No caminho, distribuía “bom dias” a torto e a direito. Sentou em seu cubículo, ligou o computador, recostou-se na cadeira e suspirou. Hora de trabalhar.
            Dez da manhã. O telefone de Felipe toca. É a namorada, Bruna. Ele hesita, mas finalmente atende.
            - Alô?
            - Oi, amor. Tudo bem?
            - Sim, claro. Olha, eu estou no trabalho agora, é urgente?
            - Não, só queria saber se vamos sair hoje?
            - Acho que hoje não, amor. Estou com um pouco de dor de cabeça.
            O silêncio que se segue mostra a decepção de Bruna. Ela finalmente responde:
            - Ah, claro, tudo bem. Então tchau.
            - Tchau.
            Meio dia. Hora do almoço. Felipe se levanta rapidamente e vai para o corredor, tentando evitar que alguém puxe assunto com ele. Ao ver a fila no elevador, desce as escadas. Caminha por 10 minutos, acha um restaurante e come uma massa. Rápido, pois precisa estar de volta em meia-hora. Nesse horário, Arthur já levantou e come um sanduíche em sua cozinha. Sentado à mesa, olha para as ruas do centro, e sorri. Ia ser um bom dia.
            Meio dia e meio. Felipe já estava de volta ao escritório, contando não só o dinheiro da empresa, mas também as horas que faltavam para sair dali. Já Arthur ia trabalhar, em casa. Era o fundador, editor, escritor e ilustrador de uma pequena revista independente. A edição daquele mês estava quase pronta, faltava somente revisar os artigos e colocar os desenhos digitalmente.
            Três da tarde. Felipe ainda contava as horas para sair. Só mais três. Arthur já terminara as revistas e começava a imprimi-las. Olhou para a pilha de edições antigas. Sentia-se orgulhoso de sua revista.
            Seis da tarde. Felipe suspirou, desligou o computador e arrumou suas coisas. Levantou-se e dirigiu-se à saída. Descendo as escadas, pensava em como agora tinha possivelmente dois dias para si mesmo. Arthur decidiu sair. Pegou seu livro preferido, “O Arquipélago”, parte da trilogia “O Tempo E O Vento”, de Érico Veríssimo, e saiu. Foi até o Parque da Redenção e sentou-se num banco.
            Naquele momento, Felipe passava pelo mesmo parque. Só pensava em voltar para casa, até que avistou Arthur. Reconheceu-o dos tempos de colégio. Viu que estava lendo “O Arquipélago” e sorriu ao lembrar que era o livro favorito dele desde a adolescência. Felipe também era grande fã de “O Tempo E O Vento”, mas seu livro favorito era “O Continente”. Discreto, sentou-se ao lado de Arthur e recitou o primeiro trecho de “O Continente”, e o trecho final de “O Arquipélago”:
            - “Era uma noite fria e de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado”.
            Arthur olhou para cima, e, reconhecendo Felipe, abriu um largo sorriso. Os dois se levantaram e abraçaram-se.
            - E aí, cara? Como tu anda? – disse Arthur.
            - Eu tô tri bem, num emprego bom, namorando... E tu?
            - Não podia estar melhor! Tenho uma pequena revista independente que cresce a cada dia, um apartamento no centro de Porto Alegre e acabo de reencontrar um grande amigo!
            Felipe sorriu e baixou a cabeça, sem saber o que dizer. Arthur sempre se expressara assim, de um jeito quase romântico, mas Felipe era mais introvertido, e aquilo o deixava um pouco sem jeito. Arthur, sem perceber, ou fingindo não perceber, disse:
            - Vamos ter que sair para jantar hoje!
            - Ah, Arthur, eu não sei.
            - Ora, vamos, te encontro na frente do Píer 174 às 19h30min, certo?
            Felipe não podia recusar o convite, até porque estava com saudade de conversar com o amigo. Os dois se despediram e foram para suas casas. Arthur saiu assoviando, pensando que o dia estava realmente muito bom.
            Seis e meia da tarde. Felipe chegou a casa, tirou o paletó e a gravata e olhou o celular. Três chamadas perdidas de Bruna. Olhou de novo e desligou-o. Bruna podia ficar uma noite sem notícias. Tomou um banho e pensou em sua vida, em tudo que desejara um dia; em tudo o que aconteceu. Saiu do banho, pôs uma roupa e sentou em seu sofá, desanimado. Já eram 19h15, e precisava andar logo se quisesse chegar a tempo.
            Sete e meia da noite. Felipe chegou pontualmente ao local de encontro, mas não viu Arthur em lugar nenhum. O amigo chegou 15 minutos atrasado e Felipe pensou como deveria ter adivinhado, pontualidade nunca fora o forte de Arthur. Os dois se abraçaram e começaram a caminhar em direção ao restaurante, conversando sobre os tempos de colégio. Chegaram ao bar e pediram duas caipirinhas.
            Arthur percebeu como Felipe bebeu a sua ansiosamente, como se quisesse se livrar logo de sua consciência. Olhou o amigo, que observava o nada, com o olhar perdido. Felipe percebeu e logo perguntou sobre a revista de Arthur, como, por que e quando começara.
            Arthur deu um meio sorriso e pensou antes de responder. Como, por que e quando havia começado mesmo? Não se lembrava de uma data exata, só lembrava que fora no terceiro ano da faculdade de Jornalismo. O motivo ele também não lembrava ao certo. Provavelmente ele só sentira uma vontade repentina e incontrolável de mudar o mundo. E essa vontade continuava, era ela que mantinha a revista. Toda vez que imprimia um novo número, ou que via alguém lendo sua publicação na rua, sentia uma pontada de orgulho que nunca ia embora por completo. Os olhos de Arthur brilhavam, e Felipe sentia inveja da realização do amigo.
            Continuaram conversando sobre coisas banais, e foi somente depois de pagarem a conta e irem embora, que Arthur perguntou:
            - E tu, Felipe? Falando sério, como andam as coisas?
            - Falando sério? Sério mesmo? – Felipe falava num tom irônico e meio arrastado. Arthur assentiu cauteloso. – As coisas andam uma bela bosta! Fiz faculdade de Administração porque meu pai queria, arranjei um emprego chato numa empresa qualquer e tenho uma namorada que é um pé no saco! E pra completar eu nem tenho mais tempo de fazer o que eu mais gostava, que era desenhar.
            Arthur observou o amigo, que tinha ido da ironia à frustação, passando pela raiva, em poucos segundos. Tentou falar alguma coisa, mas as palavras não saíam. Ficaram em silêncio por um ou dois minutos, cada um com seus pensamentos, até que Arthur falou, hesitante:
            - Tu... Tu não desenha mais? Mas desenhar era tua vida!
            Felipe olhou para ele com desdém antes de responder:
            - É, era. Até o colégio acabar e minhas vontades não importarem mais. Até meu pai destruir os meus sonhos, dizendo que no mundo real só o dinheiro importa.
            - Mas Felipe, isso ele sempre te disse, e tu nunca o escutava! O que aconteceu?
            - Não sei... Eu fui fraco e acabei me deixando levar pelas declarações dele. A verdade é que eu sempre me importei muito com o que ele dizia, mesmo sem demonstrar.
            Felipe encarava o chão, um pouco envergonhado, um pouco desolado.
            - Felipe, isso não pode continuar! Olha pra ti, cara! Só tu pode mudar isso!
            Felipe deu um risinho antes de responder:
            - Ah, Arthur, como eu amo a tua ingenuidade juvenil. Não é tão fácil assim, tu não vê? Agora eu já não tenho mais 18 anos, não tenho mais idade ou disposição pra mudar o mundo!
            - Essa é a maior bobagem que tu já disse, e foram muitas... Nunca é tarde pra mudar a tua vida, ou o mundo, se quer saber! Temos só 24 anos, Felipe, ainda é cedo.
            - MAS NÃO É, ARTHUR, NÃO É! – Gritou Felipe, olhando fundo nos olhos de Arthur.
            As poucas pessoas que passavam pela rua olharam para os dois, que se encaravam. Ainda se entendiam muito bem, mesmo depois de tanto tempo. Arthur balançou a cabeça, olhou para o chão e disse, com a voz suave:
            - Mas é Felipe, e isso só depende de ti! E se tu perdeu tua confiança no mundo, eu vou te ajudar a recuperá-la! Eu juro que eu vou te ajudar a recuperar teu espírito juvenil dos nossos tempos de escola.
            - Contigo falando parece fácil...
            - Vou te provar que é! E o primeiro passo é tu te demitir desse teu emprego que parece que suga tua vida!
            Felipe deu um meio sorriso e balançou a cabeça, pensando que Arthur era mesmo um romântico incorrigível.
            - Por favor, Felipe, deixa eu te ajudar!
            - Certo, certo, tudo bem! Vou me demitir segunda... – Felipe não queria admitir, mas a verdade é que ele estava muito feliz.
            - Fora isso, acho que vou precisar fazer um final de semana de intervenção. Tu não vê ninguém, não sai com ninguém, não fala com ninguém, só comigo.
            - Ora Arthur, acho que eu já sou bem crescidinho.
            - Pode até ser, mas olha aonde tu chegou sozinho?
            - Certo... – Felipe disse, envergonhado.
            - Ótimo. Vamos, meu apartamento é por aqui.
            Onze da noite. Os dois caminharam em silêncio até o prédio de Arthur. Entraram, subiram a escada e entraram no apartamento sem dizer uma palavra. Felipe sentou no sofá e olhou pela janela, pensativo. Arthur pegou um lençol e um travesseiro e jogou para Felipe.
            - Sinta-se em casa. Eu vou dormir. Boa noite.
            - Noite.
            Arthur foi para o quarto. No outro dia teria muito trabalho em reanimar Felipe e estava cansado. Deitou e logo depois adormeceu. Diferente do amigo. Felipe ficou horas pensando na sua vida, em como chegara àquele lugar. Não entendia como tinha deixado seu jeito idealista para trás. Estava decepcionado consigo mesmo. Quando finalmente foi dormir, já estava quase amanhecendo. 
            Dez da manhã. Sábado. Arthur acordou e foi para a sala. Felipe não estava lá. Achou estranho e foi para a cozinha. Também não estava lá. Seu apartamento era pequeno, não podia estar em nenhum outro lugar. Tinha ido embora. Arthur suspirou, balançando a cabeça. Não ia desistir tão fácil assim. Tomou um banho, fez um sanduíche e saiu, pronto para procurar o amigo.
            Onze da manhã. Tentara ligar para Felipe várias vezes. Sempre na caixa postal. Estava ficando preocupado, não sabia de nenhum lugar que ele poderia ter ido. Já havia caminhado por toda a Cidade Baixa e não havia o encontrado. Não sabia por onde começar a procurar, a cidade era muito grande. Sentou na calçada e pensou. Havia algum lugar que o amigo gostava muito?
            Foi quando percebeu. O Olímpico Monumental. Felipe sempre gostara de ir lá, por mais estranho que pareça. Arthur se levantou e começou a caminhar.
            Onze e meia. Arthur entrou no estádio e olhou em volta. Viu Felipe sentado nas arquibancadas, a vários metros de distância. Andou em sua direção e falou:
            - Cara, que ideia foi essa de sair sem avisar?
            - Eu precisava sair, estava enlouquecendo.
            - Foda-se! Eu tô tentando te ajudar, mas tu também precisa me ajudar! Por que tu veio pra cá?
            - Sei lá, sempre achei o Olímpico um ótimo lugar pra se pensar. Ainda mais vazio. A imensidão dele contrastando com o silêncio. Não sei, mexe comigo.
            - Por que tu não atendeu o celular?
            Felipe apontou para o chão. Arthur olhou e viu o que costumava ser o celular do amigo. Agora era somente plástico e vidro. Sentou ao seu lado. Os dois ficaram em silêncio, cada um com seus pensamentos.
            - Felipe, me explica direito como tu chegou aqui.
            - Como assim? Eu saí caminhando da tua casa – respondeu, confuso.
        - Não, idiota, como você veio parar aqui na VIDA. Da última vez que te vi tu ia fazer vestibular pra Artes e tava tri feliz. O que aconteceu?
            Felipe suspirou antes de responder:
            - Não, da última vez que tu me viu eu ia fazer a prova específica pra Artes. Só que eu não passei. E meu pai aproveitou isso pra me dizer que eu tinha que ouvir ele e largar meus desenhos. E eu ouvi. Então quando passei no vestibular pra Administração eu me matriculei. E fiz toda a faculdade. Arranjei um emprego bom, estável, tudo que meu pai queria. Tudo que eu não queria.
            - E a tua namorada?
            - Conheci ela na faculdade. Mas não é mais minha namorada.
            - Quê? Como assim?
          - Ela me ligou hoje e eu falei que não podia ver ela esse final de semana e que ia me demitir segunda. Ela terminou comigo. Não discuti. – Após alguns minutos de silêncio, ele retomou – Mas e tu, Arthur, como tu veio parar aqui? Me explica como, e porque, nós passamos tanto tempo sem nos ver.
            - Felipe, tu sabe muito bem que depois de acabar o colégio eu fui viajar. E talvez tenha sido por isso que a gente não se falou mais. Não foi só contigo, foi com todo mundo da nossa turma. Eu passei dois anos isolado desse mundo, rodando o meu próprio mundo. Visitei a Europa, a África, a Ásia, a Oceania, fui a lugares que eu nem sequer pensava que existiam, vi os lugares mais lindos mundo, e presenciei pessoas lutando todos os dias para simplesmente sobreviver. Isso mexe com a cabeça de qualquer um. Eu não conseguia, não podia e não queria manter contato com o mundo que eu tinha deixado. Eu sabia que eu voltaria, mas, enquanto eu estava lá, eu tinha que viver LÁ, entende? Depois que eu voltei, eu tinha mudado, e muito. Logo comecei a trabalhar e a fazer faculdade, e eu não revi quase ninguém do colégio, a não ser que eu esbarrasse em alguém...
            - Tua viagem deve ter sido sensacional.
            - Foi mesmo. Me fez pensar muito sobre muita coisa. Mas no momento eu tô preocupado CONTIGO. O que tu pretende fazer?
            Felipe suspirou antes de responder:
            - Não sei. Eu realmente não quero levar essa vida, mas eu não sei se tenho disposição pra mudar agora.
            - Sério mesmo? É DISPOSIÇÃO o teu problema? Isso é ridículo! Tô ficando cansado de discutir contigo. Tu vai se ajudar ou não?
            Felipe olhou para Arthur com um olhar doído, agoniado.
            - Vou, eu vou.
            Arthur sorriu para o amigo e lhe estendeu a mão.
            - Fico feliz de ouvir isso. Vem, vamos almoçar que eu fiquei a manhã inteira te procurando, babaca!
            Os dois se abraçaram e Felipe respondeu, meio envergonhado:
            - É, desculpa por isso.
            - Tudo bem, mas vamos logo, acho que temos muito assunto pra pôr em dia.
            Já passava de meio dia.

sábado, 17 de dezembro de 2011

we are young.

             Hoje faço trinta anos, e a primeira coisa que pensei quando acordei foi que definitivamente estou ficando velha. Já não tenho mais energia para o dia-a-dia, já tenho filhos, já estou casada há alguns anos... Quando meu marido e minha linda filha de três anos vêm com um café-da-manhã me desejar parabéns, faço tudo que posso para parecer feliz e agradecida, mas a verdade é que só me sinto deprimida. Sinto que minha tão amada juventude acaba hoje, definitivamente. Mas talvez ela tenha acabado bem antes, e eu só tenha percebido agora. Depois que fico sozinha em casa, pego um álbum de fotos antigo, de quando tinha 18 anos...


            São dez horas da noite e acabamos de chegar à festa, eu, meu namorado e alguns amigos. Outros já estão lá, e nos cumprimentam de longe, sorrindo. Outros ainda chegarão, mas o importante é que todos estaremos juntos, pelo menos uma última vez, antes de tudo acabar. Olho para James, segurando sua mão, e digo:
            - Não importa o que aconteça daqui pra frente, eu te amo e sempre amarei, certo?
            - Samantha Cooper, não quero que você se preocupe pensando em nada disso hoje, mas eu juro que você será, pra sempre, meu primeiro amor.
            - James Knight, você é o garoto mais apaixonante da face da Terra, sabia?
            James me dá um beijo rápido, depois me abraça pela cintura, e começamos a nos dirigir para a praia. Nossos amigos estão lá, ao redor de uma fogueira, brincando, conversando, cantando... Mesmo que eu não queira, não posso evitar pensar que essa é possivelmente a última vez que saímos todos juntos. Meus olhos começam a ficar marejados, e James, percebendo, me abraça mais forte.

            Fazem doze anos que me formei no colégio, e é uma coisa engraçada, às vezes parece que foi ontem, às vezes esses doze anos parecem cinquenta. Hoje sinto que foi ontem, mas ao mesmo tempo sei que faz tempo. Faz tempo demais que eu, James, Sophia, Ryan, Emma e Adam descobríamos o mundo juntos. E faz tempo demais que os vi pela última vez... Como é possível que seus melhores amigos, aqueles que temos que ver todos os dias, se tornem pessoas que vemos de cinco em cinco anos? Não faz sentido pra mim, mas nunca fez mesmo...

            Quando chegamos à fogueira, separo-me de James e me junto à Emma e Sophia, minhas melhores amigas. James vai se sentar com Ryan e Adam, e assim fechamos nosso grupo de grandes amigos. Não estamos sozinhos aqui, porque é uma festa para todos os formandos, mas de certa forma estamos sempre sozinhos, presos num mundo completamente nosso, à parte da realidade. Conhecemo-nos há muito tempo, e a repentina realização de que em alguns meses cada um vai seguir seu caminho é assustadora para todos. Talvez por isso estejamos todos em silêncio, apenas observando o fogo crepitando. Somos os únicos ao redor da fogueira, enquanto os outros se divertem dentro de casa. A quietude me acalma, porque está tudo em paz, mas também me aflige, porque sei que não temos muito tempo. Finalmente, Adam fala:
            - Muito bem, muito bem, eu sei que todos vocês, adultos, estão pensando em como vai ser daqui a alguns meses, em como vamos nos separar e blá blá blá. Pois eu digo para pararmos de nos preocupar! Nem que seja só por essa noite! Uma última noite juntos como adolescentes, certo? Por que eu não sei vocês, mas eu não quero crescer ainda!
            - Adam tem razão, por mais impressionante que seja isso! – Sophia se levanta e exclama. Adam a olha, cético, e começamos a rir.
            - E não é isso que dizem? “Se agarre aos dezesseis o quanto puder”? Não precisamos crescer ainda, não hoje! – Quando Ryan fala isso, seus olhos brilham, e ele está verdadeiramente feliz.
            - Uma última noite juntos como adolescentes, então! Vamos a fazer valer a pena, sim? – diz James, olhando pra mim e estendendo a mão.
            Levanto-me e pego sua mão, e ele me puxa para um abraço. Quando começo a lacrimejar, Ryan levanta e diz:
            - Certo, certo, mas então temos que prometer uma coisa: sem choro hoje, pessoal. É só mais uma noite comum, em que saímos e nos divertimos, juntos.
            Emma se levanta e puxa todos para um abraço. Ficamos juntos por um minuto ou dois, e quando nos separamos ela diz, rindo:
            - Por onde começar essa noite então?

            Penso onde foram parar aqueles amigos tão queridos... Sophia se casou dois anos depois daquela festa, contrariando a todos que achavam que ela nunca conseguiria ficar com um só. Ryan foi para uma renomada faculdade e virou um advogado de sucesso, mas não formou uma família, seu grande desejo. Talvez uma coisa impeça a outra. Adam continuou sem jeito e também não se casou, mas por escolha própria. Não sei exatamente onde está ou o que faz, mas com certeza estável não é. Emma, a adorável Emma, virou professora, e às vezes me encontro com ela na escola de minha filha. Já James, meu tão amado James, conseguiu tudo que queria... Contrariou todas as probabilidades e conseguiu vingar no mundo da música, após dois anos de faculdade. É verdade que o auge de sua banda já se fora, mas ainda faziam sucesso para um grupo que está na estrada há dez anos. Sorrio ao pensar nisso.
            Não consigo precisar o exato momento em que perdi o contato com eles, mas sei que foi em algum momento entre a formatura do colégio e a da faculdade. Não consigo explicar também o porquê de termos nos distanciado, se no final voltamos todos para nossa cidade natal, com exceção de James e Adam. E não consigo entender como seguimos nossas vidas sem os outros, e sem sentir falta no dia-a-dia. Como é possível que em meros quatro ou cinco anos possamos ir de melhores amigos a conhecidos?

            - Podemos começar essa noite com alguns comes e bebes, o que acham? – Fala Adam, levantando as sobrancelhas.
            Todos sabemos exatamente o que “comes e bebes” significam pra ele: alguma bebida alcoólica e drogas. Não, assim parece que ele usa de tudo, Adam fuma maconha. Bom, Adam e Sophia, e eventualmente Ryan... James e eu também já experimentamos, mas não nos tornamos usuários. Entramos na casa e vamos até a cozinha. Todos pegamos um copo de bebida, sem saber exatamente o que é. A bebida tem um gosto amargo, mas estamos tão acostumados que já não ligamos. Quando já bebemos alguns copos e já estamos mais soltos, Adam e Sophia se levantam e vão ao banheiro para fumar seu baseado. James, Ryan, Emma e eu nos entreolhamos e começamos a gargalhar. Não sabemos exatamente o porquê, mas é tão bom que só paramos depois de cinco minutos.

            Hoje em dia não fumo mais. Ainda bebo, mas somente em ocasiões especiais. Por que será que quando se é novo todas essas coisas parecem melhores? Chego à conclusão que é porque são proibidas. Qual é a graça de comprar bebida e bebe-la com os amigos se é permitido? A maconha continua proibida, mas conforme crescemos aprendemos que ninguém é punido por causa dela. E quando as coisas são liberadas, ou não há risco algum, a adrenalina se vai. E é isso que todos queremos: uma energia que nos mostre que estamos vivos.

            Quando Adam e Sophia finalmente voltam, seus olhos estão vermelhos, mas isso não é novidade. James e eu estamos abraçados, e me sinto segura e feliz. Passamos um tempo sentados em silêncio, até que Emma diz:
            - Que acham de darmos uma volta pela praia?
            Levantamo-nos e vamos até a beira do mar. Quando chegamos lá, tiramos os sapatos e molhamos os pés no mar. A água está gelada, mas não ligamos para isso. Logo Ryan tira sua camiseta e começa a entrar no mar. Olhamos para ele e fazemos igual. Os garotos entram de bermuda e as garotas de sutiã e shorts. Quem olha pode levar para um lado errado, mas não, naquela noite somos todos crianças de novo. Crianças sem malícia, que só querem aproveitar a noite que tem para brincar com os amigos.

            Isso já não existe mais, não para os adultos. Não é mais possível viver sem malícia. Não importa o que façamos, as pessoas sempre entendem errado, por mais inocente que seja a ação ou pensamento. Sinto falta de poder simplesmente sair com meus amigos e falar de coisas bobas, mas infelizmente isso também acaba quando crescemos. Ou pelo menos para mim acabou. Para James provavelmente não, duvido que seu espírito juvenil um dia acabe, mesmo que o mundo se esforce para fazê-lo.

            Lembro-me do dia em que acabamos o namoro. Estávamos os dois na faculdade, em lados opostos do país, e já não nos víamos com frequência. Quando nos encontrávamos, sempre acabávamos brigando por coisas bobas e sem importância. Nossa relação se desgastava cada vez mais por causa disso, mas eu ainda amava-o, e muito. Num feriado combinamos que eu iria até sua faculdade, e passaríamos o fim de semana juntos.
            Quando cheguei, ele não estava no aeroporto, como combinado. Fui até seu dormitório de táxi, mas ele também não estava lá. Liguei para seu celular repetidas vezes, mas ele não atendia. Comecei a ficar irritada, porque aquele fim de semana era pra fazermos as pazes. Já estava anoitecendo quando ele chegou, e eu logo gritei:
            - ONDE VOCÊ ESTAVA, JAMES?
            - Sam, me desculpe, eu tive que ensaiar... – sua voz parecia cansada, mas eu estava muito irritada para ligar.
            - O dia inteiro, James?
            - Sim, e eu sinto muito mesmo, mas espere quinze minutos, que eu vou tomar um banho e podemos sair pra jantar.
            - Acho que não, James, não hoje.
            - O quê? – agora sua voz estava triste e ele tinha uma expressão de decepção no rosto.
            - Não acho que podemos jantar juntos hoje... Ou em qualquer outra noite, pra ser sincera.
            - Sam, o que você quer dizer com isso?
            - Acho que você entendeu, James... Nós brigamos mais do que conversamos agora, acho que é hora de acabarmos...
            Os olhos de James estão cheios de lágrimas quando ele fala, a voz arrasada:
            - Você não me ama mais, é isso?
            - James, você não entende o quanto eu te amo, mas você não percebe? Não conseguimos mais passar um dia juntos sem brigarmos. Não é melhor acabarmos agora, enquanto ainda há amor, do que no dia em que nos odiarmos?
            James engoliu em seco, olhou em meus olhos e disse:
            - Não consigo entender como acabar um relacionamento quando se há amor pode ser a melhor opção, mas você é a pessoa mais inteligente que conheço, então se acha que será mais feliz assim, tudo bem.
            - James, eu não...
            - Tudo bem, está tudo bem... Pode passar o fim de semana aqui, eu fico com algum amigo meu. Aproveite a cidade.
            James tirou um envelope de seu bolso, botou em cima da mesa, me olhou uma última vez com o olhar perdido e saiu, batendo a porta. Fui até a mesa, peguei o envelope e abri-o. Era uma carta de James para mim. Respirei fundo e comecei a ler:

            “Samantha Cooper, meu primeiro amor... Primeiro e único amor. Eu sei que os dois últimos anos não foram fáceis para nós, com meus constantes ensaios e shows, que dificultam tanto nossas ligações, mas saiba que em nenhum momento eu deixei de te amar. Hoje eu realmente tive ensaios, mas somente pela manhã. Durante a tarde estava fazendo os últimos ajustes no nosso jantar de hoje à noite. Que tal um piquenique noturno, à beira do lago?
            Mas essa carta não é somente um pedido de desculpas. Sam, nos conhecemos há tanto tempo que acho que você me conhece melhor do que eu me conheço. E eu realmente não sei como explicar o que eu sinto por ti... É uma coisa meio sobrenatural, porque estamos juntos há quatro anos e meu amor só cresce. Quando estamos juntos, eu sei que tudo vai dar certo, e que nós pertencemos um ao outro.
            Mais uma vez, eu te amo tanto, e há tanto tempo, que eu não sei mais o que é passar um dia sem pensar em ti. Acho que essa carta está ficando clichê demais, não? Vou acabá-la então com o real motivo de eu estar escrevendo-a.
            Samantha May Cooper, quer casar comigo?
Te amo para sempre,
James Evan Knight”

            Quando cheguei ao final da carta, já estava chorando e soluçando como nunca antes. James era o cara perfeito, e eu havia terminado com ele, sem dá-lo uma única chance. Tentei ligar para ele durante o fim de semana inteiro, sem sucesso. Querendo ou não, havia ferido o orgulho dele. Voltei para a faculdade e segui minha vida, mas pensava, e ainda penso, todo dia nele. Não que eu não ame meu marido, mas ele simplesmente não é James.

            Passamos tanto tempo brincando na água que quando saímos estamos todos enrugados, mas, mais uma vez, nada importa mais, somente a nossa amizade. Botamos nossas roupas e sentamos na areia. Passamos um tempo em silêncio, até que Emma fala:
            - Vocês acham que é possível que continuemos nos falando? Sei que nunca vai ser igual, mas será que pelo menos manteremos contato?
            - Sinceramente? Acho que não, não é possível... – Ryan diz.
            - Bom, tudo o que eu sei é que mesmo que não mantenhamos contato, nossa amizade não vai acabar! Não importa quanto tempo fiquemos separados, o que nós temos é especial demais para simplesmente desaparecer, certo? – Sophia exclama.
            O silêncio que se segue mostra que todos concordamos. Por fim, Ryan diz:
            - Não tínhamos concordado em não pensar nisso hoje? Chega! Vamos aproveitar enquanto podemos!
            Mas a noite já está quase no fim, e logo o resto de nossos colegas sai também e se sentam ao nosso redor. Ficamos todos os formandos sentados e deitados na areia, como uma grande família. Naquele momento, estamos todos unidos.
            Estamos todos em silêncio quando vemos uma linha de luz riscar o céu e explodir, fazendo faíscas coloridas iluminá-lo. Os fogos de artifício continuam a colorir o céu e as estrelas, enquanto assistimos hipnotizados. Eles não são nossos, e não sabemos que os acende, ou por que eles parecem tão bonitos. Mas isso também não importa. O que importa é que estamos todos aqui, juntos.

            É impressionante como, quando se é jovem, coisas tão simples podem significar tanto. Uma noite na praia com amigos e fogos de artifício seria, hoje, se não normal, chata. Mas a melhor noite da minha vida foi exatamente assim. Como? Por quê? Acho que quando crescemos acabamos esquecendo o que realmente importa. A companhia de bons amigos, um amor verdadeiro, uma relação sincera e inocente.

            Quando o show de fogos se acaba, o show já começa a surgir no horizonte. Diante a súbita realização de que nossa última noite está por acabar, alguns começam a chorar, outros se abraçam, outros encaram o vazio. Mas James se levanta, e diante de meu olhar questionador, ele só faz sinal para que eu fique.
            Ele vai em direção ao estacionamento, e quando volta está com o violão a tiracolo. Sorrio ao vê-lo caminhando calmamente em minha direção. Ele se senta ao meu lado, sorri pra mim e diz:
            - Achei que estavam todos muito deprimidos, e o que é melhor para animar uma noite do que música?
            - Que música você vai tocar?
            Ele só sorri mais uma vez e começa a tocar. Os olhares se voltam para nós, e eu sorrio também ao reconhecer a música, perfeita para o momento. Quando o momento chega, eu começo a cantar:
            “Give me a second, I need to get my story straight, my friends are in the bathroom, getting higher than the Empire State, my lover he’s waiting for me, just across the bar, my seats been taken by some sunglasses asking about a scar, and”
            Todos estão nos olhando e James continua a música:
            “I know I gave it to you months ago. I know you’re trying to forget. But between the drinks and subtle things, the holes in my apologies, your know I’m trying hard to take it back”
            Com apenas um olhar, Adam e Sophia entendem que devem cantar a próxima parte.
            “So if by the time the bar closes and you feel like falling down, I’ll carry you home...”
            Com mais um olhar nossos colegas cantam em coro o refrão:
            “Tonight, we are young! So let’s set the world on fire, we can burn brighter than the sun! Tonight, we are young! So let’s set the world on fire, we can burn brighter than the sun!”
            Começamos a nos levantar e cantamos o próximo verso olhando nos olhos dos outros, com uma sincronia assustadora para quem nunca havia cantado junto.
            “Carry me home tonight (Nanananana), just carry me home tonight (Nanananana), carry me home tonight (The angels never arrived, but I can hear the choir), just carry me home tonight (So will someone come and carry me home tonight)”
            Todos se silenciam, e James e eu continuamos, acompanhados do violão:
            “Tonight, we are young! So let’s set the world on fire, we can burn brighter than the sun!”
            E mais uma vez nossos colegas nos acompanham, e nesse ponto já estamos todos abraçados:
            “Tonight, we are young! So let’s set the world on fire, we can burn brighter than the sun!”
            E como se tivéssemos ensaiado, James e eu continuamos sozinhos mais uma vez, olhando um para os olhos do outro, e entendendo o aquela noite realmente significa:
            “So if by the time, the bar closes, and you feel like falling down, I’ll carry you home tonight.”

Conto baseado na versão de Glee da música "We Are Young",
 da banda Fun com Janelle Monáe