segunda-feira, 18 de novembro de 2013

dos invernos que passamos juntos.

Ei, lembra do dia em que nos conhecemos? Não, não. Não o dia que nos apresentaram. Nesse dia aprendi apenas o teu nome. Quero dizer o dia que a gente REALMENTE se conheceu. O dia que nós conversamos. Lembra? Eu lembro. Era 1983? Sempre me esqueço do dia. Mas sei que era julho. Pô, o Grêmio ganhou a Libertadores naquele mês! Dois grandes acontecimentos pra mim em apenas 30 dias! Tô brincando. Mas é um baita tempo, não? Muitos invernos passados juntos. Às vezes parece que foi ontem. Me lembro como se fosse. É engraçado como a nossa memória é meio seletiva. Eu acho, pelo menos.
            Não sei se já te contei, mas eu me sentia meio intimidado sobre ti. Como, por quê? Tu era A guria. Mais velha. Descolada. Bá, taí uma palavra que eu não devia usar mais. Não sei explicar. Tu era legal, só isso. Legal demais. Como eu sabia, sem falar contigo? Sei lá. Eu sentia. Eu sempre senti uma aura diferente vinda de ti. Vai em frente, pode rir, mas é verdade. Mesmo sem falar contigo, eu sabia que tu era demais. Demais pra mim. Muita areia pro meu caminhãozinho, entende?
            Certo, certo, eu concordo. Tu ainda é areia demais pro meu caminhãozinho. Muito engraçada! Mas ainda é mais velha também, e agora isso não é tão bom quanto antes, né? RÁ! Não, não precisa ficar braba! Vamos voltar pras memórias...
            Aquela festa foi boa, estranha e engraçada. Tenho a impressão de essas três coisas andarem sempre de mãos dadas. Tanta gente de núcleos diferentes no mesmo lugar. Aleatório. Sabe, me lembro muito bem de tudo sobre nós daquela noite, mas o resto dela é basicamente um borrão. Olha aí a memória seletiva de novo. Muito estranho. Talvez aquela vodka de garrafa de plástico fosse meio forte pra um guri como eu. Pensando agora é até engraçado. Aquela festa foi boa.
            É claro que eu sei que a vodka nem era forte! Ei, eu não sou fraco! Eu não tinha nem dezesseis anos! Era a primeira vez que eu bebia, poxa! Ok, deu de falar sobre minhas dificuldades com álcool, né? Obrigado.
            Eu estava sentando, sozinho, tentando evitar o mundo de girar ao meu redor. Tu dançando, como sempre. Não me olhe assim, isso não é ruim, é um fato! Dançava, aliás, com aquelas roupas estilo new wave, lembra? O passado condena, hein? Claro que eu também usava, e com muito orgulho das minhas calças coloridas. Era moda, né. Ainda bem que tudo passa nessa vida.
            Mas lá estava eu, sentado, sozinho, sem amigos e passando mal. Tudo que passava pela minha mente era que eu não deveria ter ido. E eu nem podia ir pra casa, imagina chegar naquele estado? Acho que matava minha mãe de desgosto. Já bastava meu pai assim lá em casa. Meus olhos passeavam pela festa, mas, de um jeito ou de outro, sempre voltavam pra ti. Eu juro que queria levantar pra conversar contigo, mas parecia que uma força muito maior me deixava preso naquela cadeira.
            Por sorte, ou destino, tu percebeu. Nossos olhares se cruzaram uma vez e eu desviei. Se cruzaram mais duas, três, quatro vezes. Na quinta, tu sorriu e caminhou em minha direção. Eu gelei. Eu devia estar completamente pálido, porque a primeira coisa que tu me perguntou foi se eu estava me sentindo bem. Que vergonha. Sim, sim, tu me levou um copo d’água. Muito obrigado, viu? E aí a gente conversou, lembra? Por muito tempo. Até que eu tive que ir embora. Antes de eu ir, tu me disse que tinha adorado me conhecer e que a gente se falava no colégio. Ainda me deu um beijo na bochecha. Saí de lá flutuando.
            Achei que dali em diante seria estranho quando nos cruzássemos no colégio. Não foi, graças a ti. Tu sempre fez questão de não deixar isso acontecer, e por isso sou eternamente grato. Tu vinha falar comigo no recreio e cada vez mais eu ficava encantado contigo. E eu decidi que não podia deixar só tu tomar a iniciativa. Ora, como por que não? Eu não queria parecer desinteressado... Ué, deu certo não deu? Tu também caiu nos meus encantos...
            Lembra? Teve um dia que te chamei pra sair depois da aula. Passear um pouco, despretensiosamente. Fomos no parque, comemos churros. Eram bons mesmo aqueles churros. Nesse passeio eu percebi definitivamente que não havia possibilidade de continuar minha vida sem ti. Decidi que tu ia ser minha, e eu teu, custe o que custasse. É, foi logo depois do nosso primeiro beijo.
            E depois daquele vieram vários, né? Eram bons, como se a gente fosse um só naquele momento, mas nunca foram o mais importante pra mim. Pra mim sempre foi a nossa troca espiritual. Era o fato de que não existiam, e não existem, segredos entre nós. Bastava uma troca de olhar para que um soubesse exatamente os pensamentos do outro.
            Acho que tu nem tem ideia do quanto isso foi importante pra mim. Era uma fase difícil, aquela. Sim, eu sei, a adolescência é difícil, mas aquele ano em especial, pra mim, foi pesado. Meu pai, mergulhado no alcoolismo, era só uma sombra do que ele tinha sido. Minha mãe, desesperada, sem saber como criar três filhos. Eu no meio daquilo tudo, tentando ajudar, cuidando dos meus irmãos, mas sem compreender por que a vida nos pregava essa peça. Sofria calado, achando que se eu falasse ia apenas piorar a situação. A sensação de vazio era constante. Até tu chegar. Afinal, tu me completava. Não, me desculpe, tu me completa até hoje.
            Piegas, eu sei, mas real. Depois nós acontecemos rápido, não? Quando percebi já admitíamos pros amigos que estávamos juntos, logo já te pedia em namoro e mais rápido ainda te levava pra casa pra conhecer minha mãe. Não sei se já te contei, mas logo de cara ela implicou contigo. Acho que ela tinha medo que eu parasse de ajudar. Eu entendo. Mas logo que ela viu quão feliz eu fiquei ela mudou de ideia.
            Quando tu entrou na faculdade e eu ainda estava no colégio confesso que tive medo. Em que mundo uma mulher de faculdade ia querer ficar com um guri de colégio? Descobri que no nosso. E logo mais eu estava também na faculdade pra te acompanhar nas empreitadas políticas, nos almoços no restaurante universitário e, principalmente, nas festas. Às vezes me pergunto como a gente aguentou anos daquela vida...
            Ah, e como esquecer das nossas viagens depois da minha formatura? Deliciosas viagens. É verdade, ninguém queria que a gente fosse! “Vocês acabaram de se formar, vão trabalhar! Ganhar um dinheiro e estabilidade! Depois há tempo para viagens!”. E nós, pra variar, não demos ouvidos. Ainda bem. Senão com certeza não teríamos conhecido tanto da Europa, Ásia, África e tantos outros cantos do mundo. Certo, nos metemos em várias indiadas, mas isso faz parte! São delas que nos lembramos hoje.
            E quando a gente voltou, alguns anos depois, quanta diferença, não? Parecia tudo tão igual, mas ao mesmo tempo tão diferente. A rotina dos nossos amigos e família era a mesma de quando havíamos ido embora, mas às vezes parecia que nós não pertencíamos mais a esse mundo. Porto Alegre continuava a mesma. Nós é que tínhamos mudado. Pra muito, muito melhor. É, foi muito difícil se readaptar mesmo... Quantas vezes brigamos com pessoas queridas por motivos que na época pareciam tão grandes e hoje não são nada?
            Se me arrependo? Nem um pouco. De que me arrependeria? De ter voltado pra cá? Verdade, poderíamos ter ficado em algum outro canto do mundo... Mas quem garante que teria sido tão bom quanto aqui? Eu não seria capaz de arriscar. E se nossa família tivesse saído diferente em algum outro lugar do mundo? Como seriam nossos filhos se não tivessem crescido correndo e caindo na Redenção, hein?
            Sabe, eu nunca menti pra ti, não é agora que vou fazê-lo. Foi difícil quando tu te foi. Muito, muito difícil. Sabe aquela sensação estranha de vazio que eu tanto sentia na adolescência? É, ela voltou. Ainda mais forte. Eu me sentia como num inverno eterno, sempre com frio, sem vontade de sair de casa, sem ninguém para me aquecer. Todos ficaram muito preocupados comigo. Mas tenho certeza de que tu sabe disso. Não, não precisa se preocupar mais, agora estou bem. Ou o mais perto disso possível. Se quer saber, ainda é difícil, mas as lembranças de nossos momentos me ajudam a continuar.
            Ah, mas não se engane, meu amor. A nossa história não acabou. Tampouco acaba aqui. Longe disso. Histórias desse tipo não acabam. Nunca. Então, por favor, não se esqueça jamais: nós dois somos eternos.


Conto baseado na música "Julho de 83", do Nenhum de Nós.