sábado, 17 de dezembro de 2011

we are young.

             Hoje faço trinta anos, e a primeira coisa que pensei quando acordei foi que definitivamente estou ficando velha. Já não tenho mais energia para o dia-a-dia, já tenho filhos, já estou casada há alguns anos... Quando meu marido e minha linda filha de três anos vêm com um café-da-manhã me desejar parabéns, faço tudo que posso para parecer feliz e agradecida, mas a verdade é que só me sinto deprimida. Sinto que minha tão amada juventude acaba hoje, definitivamente. Mas talvez ela tenha acabado bem antes, e eu só tenha percebido agora. Depois que fico sozinha em casa, pego um álbum de fotos antigo, de quando tinha 18 anos...


            São dez horas da noite e acabamos de chegar à festa, eu, meu namorado e alguns amigos. Outros já estão lá, e nos cumprimentam de longe, sorrindo. Outros ainda chegarão, mas o importante é que todos estaremos juntos, pelo menos uma última vez, antes de tudo acabar. Olho para James, segurando sua mão, e digo:
            - Não importa o que aconteça daqui pra frente, eu te amo e sempre amarei, certo?
            - Samantha Cooper, não quero que você se preocupe pensando em nada disso hoje, mas eu juro que você será, pra sempre, meu primeiro amor.
            - James Knight, você é o garoto mais apaixonante da face da Terra, sabia?
            James me dá um beijo rápido, depois me abraça pela cintura, e começamos a nos dirigir para a praia. Nossos amigos estão lá, ao redor de uma fogueira, brincando, conversando, cantando... Mesmo que eu não queira, não posso evitar pensar que essa é possivelmente a última vez que saímos todos juntos. Meus olhos começam a ficar marejados, e James, percebendo, me abraça mais forte.

            Fazem doze anos que me formei no colégio, e é uma coisa engraçada, às vezes parece que foi ontem, às vezes esses doze anos parecem cinquenta. Hoje sinto que foi ontem, mas ao mesmo tempo sei que faz tempo. Faz tempo demais que eu, James, Sophia, Ryan, Emma e Adam descobríamos o mundo juntos. E faz tempo demais que os vi pela última vez... Como é possível que seus melhores amigos, aqueles que temos que ver todos os dias, se tornem pessoas que vemos de cinco em cinco anos? Não faz sentido pra mim, mas nunca fez mesmo...

            Quando chegamos à fogueira, separo-me de James e me junto à Emma e Sophia, minhas melhores amigas. James vai se sentar com Ryan e Adam, e assim fechamos nosso grupo de grandes amigos. Não estamos sozinhos aqui, porque é uma festa para todos os formandos, mas de certa forma estamos sempre sozinhos, presos num mundo completamente nosso, à parte da realidade. Conhecemo-nos há muito tempo, e a repentina realização de que em alguns meses cada um vai seguir seu caminho é assustadora para todos. Talvez por isso estejamos todos em silêncio, apenas observando o fogo crepitando. Somos os únicos ao redor da fogueira, enquanto os outros se divertem dentro de casa. A quietude me acalma, porque está tudo em paz, mas também me aflige, porque sei que não temos muito tempo. Finalmente, Adam fala:
            - Muito bem, muito bem, eu sei que todos vocês, adultos, estão pensando em como vai ser daqui a alguns meses, em como vamos nos separar e blá blá blá. Pois eu digo para pararmos de nos preocupar! Nem que seja só por essa noite! Uma última noite juntos como adolescentes, certo? Por que eu não sei vocês, mas eu não quero crescer ainda!
            - Adam tem razão, por mais impressionante que seja isso! – Sophia se levanta e exclama. Adam a olha, cético, e começamos a rir.
            - E não é isso que dizem? “Se agarre aos dezesseis o quanto puder”? Não precisamos crescer ainda, não hoje! – Quando Ryan fala isso, seus olhos brilham, e ele está verdadeiramente feliz.
            - Uma última noite juntos como adolescentes, então! Vamos a fazer valer a pena, sim? – diz James, olhando pra mim e estendendo a mão.
            Levanto-me e pego sua mão, e ele me puxa para um abraço. Quando começo a lacrimejar, Ryan levanta e diz:
            - Certo, certo, mas então temos que prometer uma coisa: sem choro hoje, pessoal. É só mais uma noite comum, em que saímos e nos divertimos, juntos.
            Emma se levanta e puxa todos para um abraço. Ficamos juntos por um minuto ou dois, e quando nos separamos ela diz, rindo:
            - Por onde começar essa noite então?

            Penso onde foram parar aqueles amigos tão queridos... Sophia se casou dois anos depois daquela festa, contrariando a todos que achavam que ela nunca conseguiria ficar com um só. Ryan foi para uma renomada faculdade e virou um advogado de sucesso, mas não formou uma família, seu grande desejo. Talvez uma coisa impeça a outra. Adam continuou sem jeito e também não se casou, mas por escolha própria. Não sei exatamente onde está ou o que faz, mas com certeza estável não é. Emma, a adorável Emma, virou professora, e às vezes me encontro com ela na escola de minha filha. Já James, meu tão amado James, conseguiu tudo que queria... Contrariou todas as probabilidades e conseguiu vingar no mundo da música, após dois anos de faculdade. É verdade que o auge de sua banda já se fora, mas ainda faziam sucesso para um grupo que está na estrada há dez anos. Sorrio ao pensar nisso.
            Não consigo precisar o exato momento em que perdi o contato com eles, mas sei que foi em algum momento entre a formatura do colégio e a da faculdade. Não consigo explicar também o porquê de termos nos distanciado, se no final voltamos todos para nossa cidade natal, com exceção de James e Adam. E não consigo entender como seguimos nossas vidas sem os outros, e sem sentir falta no dia-a-dia. Como é possível que em meros quatro ou cinco anos possamos ir de melhores amigos a conhecidos?

            - Podemos começar essa noite com alguns comes e bebes, o que acham? – Fala Adam, levantando as sobrancelhas.
            Todos sabemos exatamente o que “comes e bebes” significam pra ele: alguma bebida alcoólica e drogas. Não, assim parece que ele usa de tudo, Adam fuma maconha. Bom, Adam e Sophia, e eventualmente Ryan... James e eu também já experimentamos, mas não nos tornamos usuários. Entramos na casa e vamos até a cozinha. Todos pegamos um copo de bebida, sem saber exatamente o que é. A bebida tem um gosto amargo, mas estamos tão acostumados que já não ligamos. Quando já bebemos alguns copos e já estamos mais soltos, Adam e Sophia se levantam e vão ao banheiro para fumar seu baseado. James, Ryan, Emma e eu nos entreolhamos e começamos a gargalhar. Não sabemos exatamente o porquê, mas é tão bom que só paramos depois de cinco minutos.

            Hoje em dia não fumo mais. Ainda bebo, mas somente em ocasiões especiais. Por que será que quando se é novo todas essas coisas parecem melhores? Chego à conclusão que é porque são proibidas. Qual é a graça de comprar bebida e bebe-la com os amigos se é permitido? A maconha continua proibida, mas conforme crescemos aprendemos que ninguém é punido por causa dela. E quando as coisas são liberadas, ou não há risco algum, a adrenalina se vai. E é isso que todos queremos: uma energia que nos mostre que estamos vivos.

            Quando Adam e Sophia finalmente voltam, seus olhos estão vermelhos, mas isso não é novidade. James e eu estamos abraçados, e me sinto segura e feliz. Passamos um tempo sentados em silêncio, até que Emma diz:
            - Que acham de darmos uma volta pela praia?
            Levantamo-nos e vamos até a beira do mar. Quando chegamos lá, tiramos os sapatos e molhamos os pés no mar. A água está gelada, mas não ligamos para isso. Logo Ryan tira sua camiseta e começa a entrar no mar. Olhamos para ele e fazemos igual. Os garotos entram de bermuda e as garotas de sutiã e shorts. Quem olha pode levar para um lado errado, mas não, naquela noite somos todos crianças de novo. Crianças sem malícia, que só querem aproveitar a noite que tem para brincar com os amigos.

            Isso já não existe mais, não para os adultos. Não é mais possível viver sem malícia. Não importa o que façamos, as pessoas sempre entendem errado, por mais inocente que seja a ação ou pensamento. Sinto falta de poder simplesmente sair com meus amigos e falar de coisas bobas, mas infelizmente isso também acaba quando crescemos. Ou pelo menos para mim acabou. Para James provavelmente não, duvido que seu espírito juvenil um dia acabe, mesmo que o mundo se esforce para fazê-lo.

            Lembro-me do dia em que acabamos o namoro. Estávamos os dois na faculdade, em lados opostos do país, e já não nos víamos com frequência. Quando nos encontrávamos, sempre acabávamos brigando por coisas bobas e sem importância. Nossa relação se desgastava cada vez mais por causa disso, mas eu ainda amava-o, e muito. Num feriado combinamos que eu iria até sua faculdade, e passaríamos o fim de semana juntos.
            Quando cheguei, ele não estava no aeroporto, como combinado. Fui até seu dormitório de táxi, mas ele também não estava lá. Liguei para seu celular repetidas vezes, mas ele não atendia. Comecei a ficar irritada, porque aquele fim de semana era pra fazermos as pazes. Já estava anoitecendo quando ele chegou, e eu logo gritei:
            - ONDE VOCÊ ESTAVA, JAMES?
            - Sam, me desculpe, eu tive que ensaiar... – sua voz parecia cansada, mas eu estava muito irritada para ligar.
            - O dia inteiro, James?
            - Sim, e eu sinto muito mesmo, mas espere quinze minutos, que eu vou tomar um banho e podemos sair pra jantar.
            - Acho que não, James, não hoje.
            - O quê? – agora sua voz estava triste e ele tinha uma expressão de decepção no rosto.
            - Não acho que podemos jantar juntos hoje... Ou em qualquer outra noite, pra ser sincera.
            - Sam, o que você quer dizer com isso?
            - Acho que você entendeu, James... Nós brigamos mais do que conversamos agora, acho que é hora de acabarmos...
            Os olhos de James estão cheios de lágrimas quando ele fala, a voz arrasada:
            - Você não me ama mais, é isso?
            - James, você não entende o quanto eu te amo, mas você não percebe? Não conseguimos mais passar um dia juntos sem brigarmos. Não é melhor acabarmos agora, enquanto ainda há amor, do que no dia em que nos odiarmos?
            James engoliu em seco, olhou em meus olhos e disse:
            - Não consigo entender como acabar um relacionamento quando se há amor pode ser a melhor opção, mas você é a pessoa mais inteligente que conheço, então se acha que será mais feliz assim, tudo bem.
            - James, eu não...
            - Tudo bem, está tudo bem... Pode passar o fim de semana aqui, eu fico com algum amigo meu. Aproveite a cidade.
            James tirou um envelope de seu bolso, botou em cima da mesa, me olhou uma última vez com o olhar perdido e saiu, batendo a porta. Fui até a mesa, peguei o envelope e abri-o. Era uma carta de James para mim. Respirei fundo e comecei a ler:

            “Samantha Cooper, meu primeiro amor... Primeiro e único amor. Eu sei que os dois últimos anos não foram fáceis para nós, com meus constantes ensaios e shows, que dificultam tanto nossas ligações, mas saiba que em nenhum momento eu deixei de te amar. Hoje eu realmente tive ensaios, mas somente pela manhã. Durante a tarde estava fazendo os últimos ajustes no nosso jantar de hoje à noite. Que tal um piquenique noturno, à beira do lago?
            Mas essa carta não é somente um pedido de desculpas. Sam, nos conhecemos há tanto tempo que acho que você me conhece melhor do que eu me conheço. E eu realmente não sei como explicar o que eu sinto por ti... É uma coisa meio sobrenatural, porque estamos juntos há quatro anos e meu amor só cresce. Quando estamos juntos, eu sei que tudo vai dar certo, e que nós pertencemos um ao outro.
            Mais uma vez, eu te amo tanto, e há tanto tempo, que eu não sei mais o que é passar um dia sem pensar em ti. Acho que essa carta está ficando clichê demais, não? Vou acabá-la então com o real motivo de eu estar escrevendo-a.
            Samantha May Cooper, quer casar comigo?
Te amo para sempre,
James Evan Knight”

            Quando cheguei ao final da carta, já estava chorando e soluçando como nunca antes. James era o cara perfeito, e eu havia terminado com ele, sem dá-lo uma única chance. Tentei ligar para ele durante o fim de semana inteiro, sem sucesso. Querendo ou não, havia ferido o orgulho dele. Voltei para a faculdade e segui minha vida, mas pensava, e ainda penso, todo dia nele. Não que eu não ame meu marido, mas ele simplesmente não é James.

            Passamos tanto tempo brincando na água que quando saímos estamos todos enrugados, mas, mais uma vez, nada importa mais, somente a nossa amizade. Botamos nossas roupas e sentamos na areia. Passamos um tempo em silêncio, até que Emma fala:
            - Vocês acham que é possível que continuemos nos falando? Sei que nunca vai ser igual, mas será que pelo menos manteremos contato?
            - Sinceramente? Acho que não, não é possível... – Ryan diz.
            - Bom, tudo o que eu sei é que mesmo que não mantenhamos contato, nossa amizade não vai acabar! Não importa quanto tempo fiquemos separados, o que nós temos é especial demais para simplesmente desaparecer, certo? – Sophia exclama.
            O silêncio que se segue mostra que todos concordamos. Por fim, Ryan diz:
            - Não tínhamos concordado em não pensar nisso hoje? Chega! Vamos aproveitar enquanto podemos!
            Mas a noite já está quase no fim, e logo o resto de nossos colegas sai também e se sentam ao nosso redor. Ficamos todos os formandos sentados e deitados na areia, como uma grande família. Naquele momento, estamos todos unidos.
            Estamos todos em silêncio quando vemos uma linha de luz riscar o céu e explodir, fazendo faíscas coloridas iluminá-lo. Os fogos de artifício continuam a colorir o céu e as estrelas, enquanto assistimos hipnotizados. Eles não são nossos, e não sabemos que os acende, ou por que eles parecem tão bonitos. Mas isso também não importa. O que importa é que estamos todos aqui, juntos.

            É impressionante como, quando se é jovem, coisas tão simples podem significar tanto. Uma noite na praia com amigos e fogos de artifício seria, hoje, se não normal, chata. Mas a melhor noite da minha vida foi exatamente assim. Como? Por quê? Acho que quando crescemos acabamos esquecendo o que realmente importa. A companhia de bons amigos, um amor verdadeiro, uma relação sincera e inocente.

            Quando o show de fogos se acaba, o show já começa a surgir no horizonte. Diante a súbita realização de que nossa última noite está por acabar, alguns começam a chorar, outros se abraçam, outros encaram o vazio. Mas James se levanta, e diante de meu olhar questionador, ele só faz sinal para que eu fique.
            Ele vai em direção ao estacionamento, e quando volta está com o violão a tiracolo. Sorrio ao vê-lo caminhando calmamente em minha direção. Ele se senta ao meu lado, sorri pra mim e diz:
            - Achei que estavam todos muito deprimidos, e o que é melhor para animar uma noite do que música?
            - Que música você vai tocar?
            Ele só sorri mais uma vez e começa a tocar. Os olhares se voltam para nós, e eu sorrio também ao reconhecer a música, perfeita para o momento. Quando o momento chega, eu começo a cantar:
            “Give me a second, I need to get my story straight, my friends are in the bathroom, getting higher than the Empire State, my lover he’s waiting for me, just across the bar, my seats been taken by some sunglasses asking about a scar, and”
            Todos estão nos olhando e James continua a música:
            “I know I gave it to you months ago. I know you’re trying to forget. But between the drinks and subtle things, the holes in my apologies, your know I’m trying hard to take it back”
            Com apenas um olhar, Adam e Sophia entendem que devem cantar a próxima parte.
            “So if by the time the bar closes and you feel like falling down, I’ll carry you home...”
            Com mais um olhar nossos colegas cantam em coro o refrão:
            “Tonight, we are young! So let’s set the world on fire, we can burn brighter than the sun! Tonight, we are young! So let’s set the world on fire, we can burn brighter than the sun!”
            Começamos a nos levantar e cantamos o próximo verso olhando nos olhos dos outros, com uma sincronia assustadora para quem nunca havia cantado junto.
            “Carry me home tonight (Nanananana), just carry me home tonight (Nanananana), carry me home tonight (The angels never arrived, but I can hear the choir), just carry me home tonight (So will someone come and carry me home tonight)”
            Todos se silenciam, e James e eu continuamos, acompanhados do violão:
            “Tonight, we are young! So let’s set the world on fire, we can burn brighter than the sun!”
            E mais uma vez nossos colegas nos acompanham, e nesse ponto já estamos todos abraçados:
            “Tonight, we are young! So let’s set the world on fire, we can burn brighter than the sun!”
            E como se tivéssemos ensaiado, James e eu continuamos sozinhos mais uma vez, olhando um para os olhos do outro, e entendendo o aquela noite realmente significa:
            “So if by the time, the bar closes, and you feel like falling down, I’ll carry you home tonight.”

Conto baseado na versão de Glee da música "We Are Young",
 da banda Fun com Janelle Monáe

Nenhum comentário:

Postar um comentário