- Não consigo mais, preciso ir
embora.
Ela
levantou-se em um pulo e foi em direção ao quarto, enquanto ele ficou sentado
no sofá, com seu caderninho em mãos, sem saber o que acontecia. Levantou-se
logo depois, um pouco atordoado, e, pisando nos milhares de papéis pelo chão,
seguiu-a.
-
Como assim, “não consigo mais”?
-
Não dá mais pra ficar aqui, preciso ir embora!
Ficou
observando-a, sem saber ao certo o que dizer para fazê-la mudar de ideia.
-
Mas e todos os nossos momentos? E toda a nossa vida?
-
Por que não escreve sobre eles, já que é só o que faz da vida? – Sua voz soou
amarga.
-
Já cansei de escrever o que eu preciso te dizer. Você que nunca lê.
-
A culpa não é minha se você é homem feito e não consegue falar o que sente.
-
Minhas palavras são tudo que eu posso oferecer.
-
Resposta errada.
E,
com isso, adentrou no banheiro e começou a recolher suas quinquilharias. Ele,
ainda um pouco perplexo, tentava compreender o que aquilo significava: o fim.
O
fim das noites em claro observando ela, rabiscando palavras sem sentido. Dos
versos jogados pelo chão, pisoteados por sentimentos que nenhum dos dois
compreendia. Daquele mar de lençóis que é sua cama, das histórias que cada uma
de suas dobras conta. Daquele amor embriagante que nunca antes experimentara.
Da felicidade. Dos dois. O fim?
Ela
entrou novamente no quarto, como um furacão, sem respeitar o que tinha a sua
frente. Mas, também, não entrara em sua vida assim? Não fora isso que o impressionara?
Mexia em suas roupas e as enfiava na bolsa, desordenada. Ele podia ver sua
tristeza, e a sentia também, mas não sabia resolvê-la. Aproximou-se, o coração
acelerado e a respiração ofegante. Seu desejo era tocar-lhe a alma, mas teve de
contentar-se com o braço.
-
Mas diz por que chegou a hora? Mas diz por que tens tanto medo?
-
Não tenho medo, só... Chegou a hora de ir, é só isso.
-
Mas diz por que chegou a hora? Agora que eu venci meu medo...
Sem
responder, ela se virou e tentou chegar ao outro lado do quarto, tentando
esconder o rosto. Ao passar do lado dele, sentiu suas mãos se entrelaçarem.
Puxou-a num abraço que logo se transformou numa dança. Seus corpos estavam mais
próximos do que nunca, e eles podiam sentir o coração do outro bater. Corações
esses que corriam, desesperados, sem entender o que sentiam. Ela fechou os
olhos e respirou fundo, sentindo o cheiro de menta que ele exalava sempre. Seus
lábios tocaram a testa dela, num beijo singelo. As lágrimas já escorriam pelos
rostos, e seus corpos formavam um só, mas as almas já não estavam em sintonia
como antes.
-
Não posso viver sem você.
-
Pode sim, viveu 25 anos.
-
25 tristes e solitários anos.
-
Dramático como sempre. – ela falou, balançando a cabeça - Vamos seguir nossas
vidas, vais ver, e seremos apenas lembranças distantes um dia. Você sempre
poderá lembrar.
-
Por que você insiste em dizer que ainda existirá vida sem você?
Ele
ficava nervoso. Via o seu mundo escapar pelas mãos, e não podia fazer nada a
não ser se desesperar. Seus esforços de mudar o pensamento dela eram em vão, e
sabia que assim continuariam; ela nunca mudava de ideia. Ela se desvencilhou de
seus braços, e ele suava frio. Não conseguia aceitar o triste destino dos dois.
Era assim que acabava, então? Depois dos três anos mais intensos de sua vida,
era obrigado a ver tudo ir embora. A dizer adeus. E não tinha opção, não tinha
escolha. Observou ela terminar de enfiar suas coisas na bolsa. Trocaram um
olhar longo e significativo. Um olhar de adeus. Ela passou por ele, que tentou
puxá-la, sem sucesso. Ela dirigia-se à sala, para juntar mais objetos
espalhados pelo pequeno apartamento. Ele, que agora só sentia dor, seguiu-a,
murmurando apenas alto o suficiente para que ela escutasse:
-
Quando você não esperar vai doer, e eu sei como vai doer.
Ela
olhou para ele, assustada. O modo que ele pronunciava cada sílaba fazia aquelas
frases parecerem uma maldição.
-
E vai passar, como passou por mim, e
fazer com que se sinta assim, como eu sinto, como eu vejo, como eu vivo,
como eu não canso de cantar.
Ela
passou ao seu lado mais uma vez, e ele sentiu-lhe o perfume. Aquele perfume
doce, misturado ao cheiro áspero de sua pele e do suor causado mais pelas
emoções do que pelo dia quente. Abriu a porta.
-
Eu sei que vai ouvir, eu sei que vai lembrar. E vai rezar pra esquecer, vai pedir pra esquecer. Mas
eu não vou deixar.
Trocaram
um último olhar. Doído como suas vidas. Os corações batiam acelerados, e não se
ouvia nada naquele momento. Seu último momento. Palavras voavam por suas
mentes, mas nenhuma chegou a suas bocas.
A porta começou a se fechar, ele abaixou a cabeça e cerrou os punhos. No
momento em que a porta bateu, ouviu-se apenas um murmúrio:
-
Eu
não vou deixar.
Falando
isso, desabou. Escorregou até o chão, as lágrimas correndo soltas pelo rosto,
protegido pelas mãos. Sua cabeça era um turbilhão de emoções, e ele não era
capaz de nenhum raciocínio naquele momento. Passou horas encarando o vazio
pensando nela.
Logo percebeu que não
tinha volta. Ela fora embora pra sempre, levando com ela seu coração, mas não
seu orgulho. Seu mundo acabara, mas iria reconstruí-lo. Custe o que custasse.
-
Vou te esquecer.
Levantou-se,
e começou a recolher tudo que lembrava ela. Logo percebeu que tudo remetia a
ela, teria que livrar-se do apartamento. Todos os travesseiros com seu cheiro,
as cartas com sua caligrafia, os vídeos com sua imagem e, pior, sua voz. Toda
uma vida, jogada fora. Separou todas as fotos dos dois, e rasgou-as ao meio.
Pegou um pote de vidro e um isqueiro. Segurou a primeira metade próxima ao
rosto e acendeu o isqueiro. Tocou a chama no canto da foto, e observou o fogo
consumir lentamente o rosto sorridente. Uma memória destruída. Apenas a
primeira de muitas.
-
Vou
te esquecer.
- Alô?
- Oi...
Como vão as coisas?
- Vão
indo. Com você?
- Não
exatamente. Preciso de você. Muito.
- Que
engraçado, você que foi embora.
Silêncio.
- Veja
bem, como você mesma disse, agora somos apenas lembranças distantes. Você
sempre poderá lembrar.
- Eu não quero lembrar que chegamos ao nosso fim. Eu não
quero lembrar que eu vou acordar sabendo que meus olhos não vão te encontrar. Eu não quero lembrar que tudo acabou pra
mim.
- Já te esqueci.
Dos dois. O fim.
Conto baseado na música "Milonga", da banda Fresno. Recomendo escutá-la. (:
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