domingo, 17 de março de 2013

milonga.

             A rádio tocava uma boa e velha milonga uruguaia.
            - Não consigo mais, preciso ir embora.
            Ela levantou-se em um pulo e foi em direção ao quarto, enquanto ele ficou sentado no sofá, com seu caderninho em mãos, sem saber o que acontecia. Levantou-se logo depois, um pouco atordoado, e, pisando nos milhares de papéis pelo chão, seguiu-a.
            - Como assim, “não consigo mais”?
            - Não dá mais pra ficar aqui, preciso ir embora!
            Ficou observando-a, sem saber ao certo o que dizer para fazê-la mudar de ideia.
            - Mas e todos os nossos momentos? E toda a nossa vida?
            - Por que não escreve sobre eles, já que é só o que faz da vida? – Sua voz soou amarga.
            - Já cansei de escrever o que eu preciso te dizer. Você que nunca lê.
            - A culpa não é minha se você é homem feito e não consegue falar o que sente.
            - Minhas palavras são tudo que eu posso oferecer.
            - Resposta errada.
            E, com isso, adentrou no banheiro e começou a recolher suas quinquilharias. Ele, ainda um pouco perplexo, tentava compreender o que aquilo significava: o fim.
            O fim das noites em claro observando ela, rabiscando palavras sem sentido. Dos versos jogados pelo chão, pisoteados por sentimentos que nenhum dos dois compreendia. Daquele mar de lençóis que é sua cama, das histórias que cada uma de suas dobras conta. Daquele amor embriagante que nunca antes experimentara. Da felicidade. Dos dois. O fim?
            Ela entrou novamente no quarto, como um furacão, sem respeitar o que tinha a sua frente. Mas, também, não entrara em sua vida assim? Não fora isso que o impressionara? Mexia em suas roupas e as enfiava na bolsa, desordenada. Ele podia ver sua tristeza, e a sentia também, mas não sabia resolvê-la. Aproximou-se, o coração acelerado e a respiração ofegante. Seu desejo era tocar-lhe a alma, mas teve de contentar-se com o braço.
            - Mas diz por que chegou a hora? Mas diz por que tens tanto medo?
            - Não tenho medo, só... Chegou a hora de ir, é só isso.
            - Mas diz por que chegou a hora? Agora que eu venci meu medo...
           Sem responder, ela se virou e tentou chegar ao outro lado do quarto, tentando esconder o rosto. Ao passar do lado dele, sentiu suas mãos se entrelaçarem. Puxou-a num abraço que logo se transformou numa dança. Seus corpos estavam mais próximos do que nunca, e eles podiam sentir o coração do outro bater. Corações esses que corriam, desesperados, sem entender o que sentiam. Ela fechou os olhos e respirou fundo, sentindo o cheiro de menta que ele exalava sempre. Seus lábios tocaram a testa dela, num beijo singelo. As lágrimas já escorriam pelos rostos, e seus corpos formavam um só, mas as almas já não estavam em sintonia como antes.
            - Não posso viver sem você.
            - Pode sim, viveu 25 anos.
            - 25 tristes e solitários anos.
         - Dramático como sempre. – ela falou, balançando a cabeça - Vamos seguir nossas vidas, vais ver, e seremos apenas lembranças distantes um dia. Você sempre poderá lembrar.
            - Por que você insiste em dizer que ainda existirá vida sem você?
           Ele ficava nervoso. Via o seu mundo escapar pelas mãos, e não podia fazer nada a não ser se desesperar. Seus esforços de mudar o pensamento dela eram em vão, e sabia que assim continuariam; ela nunca mudava de ideia. Ela se desvencilhou de seus braços, e ele suava frio. Não conseguia aceitar o triste destino dos dois. Era assim que acabava, então? Depois dos três anos mais intensos de sua vida, era obrigado a ver tudo ir embora. A dizer adeus. E não tinha opção, não tinha escolha. Observou ela terminar de enfiar suas coisas na bolsa. Trocaram um olhar longo e significativo. Um olhar de adeus. Ela passou por ele, que tentou puxá-la, sem sucesso. Ela dirigia-se à sala, para juntar mais objetos espalhados pelo pequeno apartamento. Ele, que agora só sentia dor, seguiu-a, murmurando apenas alto o suficiente para que ela escutasse:
            - Quando você não esperar vai doer, e eu sei como vai doer.
            Ela olhou para ele, assustada. O modo que ele pronunciava cada sílaba fazia aquelas frases parecerem uma maldição.
            - E vai passar, como passou por mim, e fazer com que se sinta assim, como eu sinto, como eu vejo, como eu vivo, como eu não canso de cantar.
            Ela passou ao seu lado mais uma vez, e ele sentiu-lhe o perfume. Aquele perfume doce, misturado ao cheiro áspero de sua pele e do suor causado mais pelas emoções do que pelo dia quente. Abriu a porta.
            - Eu sei que vai ouvir, eu sei que vai lembrar. E vai rezar pra esquecer, vai pedir pra esquecer. Mas eu não vou deixar.
            Trocaram um último olhar. Doído como suas vidas. Os corações batiam acelerados, e não se ouvia nada naquele momento. Seu último momento. Palavras voavam por suas mentes, mas nenhuma chegou a suas bocas.  A porta começou a se fechar, ele abaixou a cabeça e cerrou os punhos. No momento em que a porta bateu, ouviu-se apenas um murmúrio:
            - Eu não vou deixar.
            Falando isso, desabou. Escorregou até o chão, as lágrimas correndo soltas pelo rosto, protegido pelas mãos. Sua cabeça era um turbilhão de emoções, e ele não era capaz de nenhum raciocínio naquele momento. Passou horas encarando o vazio pensando nela.
Logo percebeu que não tinha volta. Ela fora embora pra sempre, levando com ela seu coração, mas não seu orgulho. Seu mundo acabara, mas iria reconstruí-lo. Custe o que custasse.
            - Vou te esquecer.
            Levantou-se, e começou a recolher tudo que lembrava ela. Logo percebeu que tudo remetia a ela, teria que livrar-se do apartamento. Todos os travesseiros com seu cheiro, as cartas com sua caligrafia, os vídeos com sua imagem e, pior, sua voz. Toda uma vida, jogada fora. Separou todas as fotos dos dois, e rasgou-as ao meio. Pegou um pote de vidro e um isqueiro. Segurou a primeira metade próxima ao rosto e acendeu o isqueiro. Tocou a chama no canto da foto, e observou o fogo consumir lentamente o rosto sorridente. Uma memória destruída. Apenas a primeira de muitas.
            - Vou te esquecer. 

- Alô?
- Oi... Como vão as coisas?
- Vão indo. Com você?
- Não exatamente. Preciso de você. Muito.
- Que engraçado, você que foi embora.
Silêncio.
- Veja bem, como você mesma disse, agora somos apenas lembranças distantes. Você sempre poderá lembrar.
- Eu não quero lembrar que chegamos ao nosso fim. Eu não quero lembrar que eu vou acordar sabendo que meus olhos não vão te encontrar. Eu não quero lembrar que tudo acabou pra mim.
- Já te esqueci.
Dos dois. O fim.


Conto baseado na música "Milonga", da banda Fresno. Recomendo escutá-la. (:

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