domingo, 22 de junho de 2014

quando crescer.

            Sabe quando somos crianças e nos perguntam o que queremos ser quando crescer? É estranho, não? Como crianças podem ter tanta certeza. Crianças sabem exatamente o que querem, e não ligam se aquilo é impossível, é o que querem, é o que vai acontecer, e ponto.
            Quem me dera ter a persistência e a ambição de uma criança. Minto, quem me dera ter sua ingenuidade de que o mundo é simples e justo. Quem me dera ter alguma certeza nessa vida. Quem me dera não ter preocupações estúpidas. Quem me dera não ter preocupações. Isso tudo, na verdade, não faz sentido pra mim. Como podem elas ter mais certeza do que são e do que serão e eu, tantos anos mais velho, nenhuma? Não é justo.
            Quando me faziam esses questionamentos na infância eu sabia exatamente o que responder. Vou ser sozinho. Meus pais e os amigos riam do estranho desejo do garotinho e passavam a algum outro tópico mais interessante, política, economia ou qualquer outro desses assuntos de gente grande. Eu ficava lá, num canto, como que escutando tudo, mas absorto nos meus próprios pensamentos.
            Isso era normal pra mim. Desde pequeno achava certas atitudes cotidianas estranhas e preferia me afastar das pessoas a ter que aprender a lidar com elas. Quando cheguei ao colégio, fiz como que um pacto silencioso com meus colegas. Eles podiam ter suas maneiras clichês e entediantes longe de mim e não precisavam ser simpáticos com o esquisitão. Pode parecer triste, mas, honestamente, era um ótimo acordo, todos saíam felizes.
            Minha mãe se preocupava com seu filho, sempre tão solitário. Passei por inúmeros psicólogos que tentavam quebrar minha casca e me fazer deixar a timidez de lado. Nenhum deles, nem o mais renomado doutor em Psicologia, foi capaz de perceber que não era timidez coisa nenhuma. Nenhum deles foi capaz de perceber que o que tinha à minha volta não era uma casca natural, e sim um castelo cuidadosamente construído para não haver falhas. Para que nenhuma brecha do estúpido mundo de fora fosse capaz de passar. Falhei.
            Falhei miseravelmente nessa minha busca consciente pelo isolamento. Falhei miseravelmente por motivos inconscientes que me fugiam do controle. Falhei miseravelmente por causa da minha mente, que antes era alimentada pela solidão, e passou a clamar por outras coisas. Falhei miseravelmente por causa dos meus sentidos, que se tornaram escravos de visões, cheiros, sons e toques. Falhei miseravelmente porque é esse o destino inelutável do ser humano, que clama sempre por atenção, clama sempre por calor, clama sempre por alguém.
            Olhando em retrospecto, o pior pra mim foi a maneira como falhei. Lenta e gradualmente. Tivesse eu falhado abruptamente, poderia facilmente identificar o porquê da minha falha e até revertê-la. Da maneira como foi, só percebi meus erros quando já era tarde demais para voltar atrás, quando já estava demasiadamente envolvido com ela. Demasiadamente fascinado com seus trejeitos e manias. Demasiadamente viciado em nós.
            Foi assim, também, que ela conseguiu ser a única pessoa a invadir meu castelo. Lenta e gradualmente. Começou com um rápido oi e o brilho nos seus olhos castanho-escuros num lugar qualquer da faculdade.  Foi adiante com uma conversa mais comprida sobre qualquer coisa e sua voz meio rouca ao telefone. Dali para o cheiro do seu hidratante de morango logo depois dela sair do banho. Para a sua mão procurando a minha por baixo das cobertas. E, quando percebi, já estava completamente dependente da maneira que ela me escutava e me entendia. Completamente dependente dessa coisa de ter alguém.
            É fato que eu poderia – até deveria – ter percebido que algo estava errado. Pensando agora, ela me deu alguns sinais, mesmo que inconscientemente. Ela deixou de me ligar só pra ouvir minha voz. Eu ainda quero ouvir sua voz. Ela parou de usar o perfume que eu mais gostava: aquela mistura única e perfeita de maçã verde com canela. Meu coração ainda acelera quando me lembro de seu cheiro. Os bilhetes que ela me deixava foram diminuindo até se resumirem a simples pedidos como fazer as compras no supermercado. Eu ainda sinto saudade de encontrá-los nos mais inesperados lugares. As noites passadas em minha casa já quase não existiam. Eu ainda penso nela quando a luz se apaga.
            Eu juro, tentei conversar com ela. Eu tentei nos salvar. Tentei me salvar. Do vazio, do frio, da solidão. No início ela desviava das perguntas, está tudo bem, é imaginação sua. Depois começou a apontar falhas em mim. Eu as corrigi. Todas. Eu descobri, então, que de nada adiantaria. Ela já não queria mais estar aqui comigo. Nada a faria mudar de ideia e eu fui deixado com esse lugar sobrando ao meu lado. Ele é dela. Eu sou dela.
            Ela se foi, e nem deu tempo de eu me preparar. Foi com o último de seus bilhetes que eu fiquei sabendo. Gostaria de dizer que era um bilhetinho todo azul com seus garranchos dizendo que ela estava se mandando pra Bahia, xuxu. Só que isso seria romântico demais, ele simplesmente dizia que ela não estava mais feliz e ia se mudar. Achou melhor não nos vermos para evitar uma despedida difícil. Achou melhor não dizer onde estaria, para que eu não fosse vê-la. Nem sequer percebeu que aquele bilhete me dizia exatamente onde ficaria para sempre: no meu passado.
            Às vezes, queria uma explicação pra essa mudança. Às vezes, só queria esquecer. Sei que é inútil, e que eu nunca saberei seus motivos, e tampouco conseguirei esquecê-la completamente. Um pouco dela estará sempre ao meu lado, como que me assombrando. Só que esse pouco dela não supre toda a minha necessidade. E eu sou obrigado a viver assim – sozinho - agora, e é essa minha sina. Acabou. Acabou.

            Eu sou o que eu queria ser quando crescer.

Conto vagamente baseado na música "Quando Crescer", da Fresno.

Nenhum comentário:

Postar um comentário